terça-feira, 8 de outubro de 2013

Vulnerabilidade, vergonha e arena

Estar atenta ao que me rodeia, aos sinais que vão surgindo, coisas aleatórias ou nem tanto assim...
É a velha história de procurar respostas algures, em alguém... e que estão sempre em nós, ainda que tantas vezes veiculadas por outros...
Nos dois vídeos abaixo que vos deixo, e que espero que tenham a paciência para os ver porque são maravilhosos, ficaram-me 3 palavras: vulnerabilidade, vergonha e arena.
Vieram até mim através de duas pessoas: uma não a conheço pessoalmente, mas a sua escrita conquista-me e pacifica-me quase diariamente; a outra conheço-a há anos... e não a vejo há anos..., mas o virtual aproximou-nos.
E desta forma, sem que nada o previsse, assisto à abordagem de dois sentimentos que tantas vezes me ensombram e assombram. Por estes dias, mais vívidos e sofridos, por causa de um espectáculo em que entro e que me traz tanto de contentamento como de medo, de vontade de o sentir nas entranhas como o receio de falhar nessa intenção.
E estes vídeos foram aquela mão forte que te agarra quando quase tropeças. Uma dádiva em dia de reflexão. Uma ajuda, uma resposta, uma força. Não há mal algum em ser vulnerável, ter vergonha. Mal maior é não aproveitar isso para passos maiores e arriscados.
Na arena é que se combate, não fora dela.

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sem-abrigo

- Lá em baixo, à entrada do prédio, está um sem-abrigo, dizia o senhor no estabelecimento comercial.
- É o mesmo de ontem, não é? - perguntou a dona. Ainda ontem o vi, até me dói ver o coitado.
- Alguém pôs uma floreira no sítio onde o senhor se deita para ver se ele se vai embora, mas ele agora foi para o outro lado da porta. Qualquer dia põem lá uma floreira também.
Quando desci o elevador esperava encontrar o sem-abrigo. Estava já deitado, a dormir. Eram 20hrs.
- Senhor...
O senhor abriu os olhos a custo, um olhar doloroso, lamacento.
- Tome,... isto é para si.
Ele olhava-me como se não acreditasse que eu me estivesse a dirigir a ele, mas a sua mão abriu-se instantaneamente. Mesmo sem olhar para o que lhe dava.
Quando sentiu o que era, fechou a mão e expirou "oh menina..."
Vim-me embora, parecia que tinha o meu pescoço agrilhoado.
Ser sem-abrigo deve ser como ser-se expropriado da sua própria pessoa.
Ser sem-abrigo num país estrangeiro deve ser como não ter sítio na vida...

domingo, 29 de setembro de 2013

Urnas carregadas de Esperança

As primeiras eleições em que votei, acabadinha de fazer 18 anos, foi para a Presidência da República.
Lembro-me que mal pude começar a tratar do cartão de eleitor, fi-lo. Para mim, este cartão era de grande importância, logo a seguir ao BI e cartão de contribuinte. Ainda hoje penso assim.
Eu queria mesmo votar,  estava ansiosa pelo dia, pela 1ª vez achava que estava a contribuir com algo para o país.
De lá para cá só falhei uma vez o meu dever de voto porque estava ausente do país. Não foi premeditado, mas senti-me em falta. Actualmente, dia de eleições não é para estar ausente, organizo a minha vida nesse sentido. E se tiver de me ausentar... as urnas abrem às 8hrs. Em 5 minutos o meu dever está cumprido.
De lá para cá desiludi-me com a política, mas gosto de uma boa tertúlia sobre a mesma. Mais do que a opinião dos políticos da praça, gosto de ouvir a opinião das pessoas e "entendidos".
De lá para cá descobri que sou apartidária, que acredito em pessoas e projectos.
De lá para cá descobri que não há pessoas e projectos perfeitos.
De lá para cá descobri que muito boas intenções são barradas e nunca saem do papel.
De lá para cá descobri que o melhor dos projectos nunca reúne consenso.
De lá para cá descobri que o pior dos projectos agrada sempre a alguém.
De lá para cá descobri que abomino obra feita à custa do endividamento brutal, do engano e ilusão dos que trabalham e não vêm pagamento tão cedo. É um dos mais importantes parâmetros para definir o meu voto. Hoje, mais uma vez, vai defini-lo.
Mas voto.
Porque é um dever cívico. É o meu país, por muito desiludida e descontente que possa estar.
É a minha maneira de dizer que tenho esperança em dias melhores, que acredito e confio naquelas pessoas que são mais corajosas que eu, que vão além do voto e agem, espero, em prol dos outros.
Sei de trabalho muito bem feito, muitas horas dadas aos outros, a pensar num bem maior e geral.
Por isso não aceito razões para não votar.
Como se já não houvesse mais nada a ganhar e tudo a perder.
Porque a obra feita não nos atinge directamente, mas outros.
Porque há corrupção. Como se não votando a estivéssemos a impedir.
O desapontamento não pode ser um motivo. Se nos abstivéssemos em todas as nossas desilusões, o nosso mundo não melhorava. Se não gostamos e aceitamos isso na nossa vida...
Para o bem e para o mal somos um povo. Pensar e agir no geral é pensar e agir  em particular.
Os outros somos nós.
Já votei :)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Saltos sem chão

A natureza fez-me reservada, tímida e ... discreta. O que a maior parte das vezes é uma chatice.
O esforço em provar o que quer que seja é sempre redobrado, os receios são múltiplos, o deixar-me conhecer torna-se demorado, o que também me priva de conhecer mais fácil e naturalmente outras pessoas. É só perdas.
Não foi surpresa para mim quando a minha família se espantou pelo meu interesse no teatro, primeiro, na dança, depois.
Antes não me surpreendeu o meu gosto pela arte de representar e de dançar. Era um mundo de sonhos. O que me surpreendeu foi a força em tentar tornar esse mundo um pouco mais real.
O teatro ocupou-me pouco tempo, mas foram meses mágicos de provas dadas e medos ultrapassados. O pouco tempo dedicado idealizou este amor. Hoje satisfaço o meu bichinho vendo teatro, respirando os teatros que visito, suspirando nos teatros onde me sento.
Mudança de vida encaminhou-me para outro amor, a dança. Este mais longo, como tal mais vivido e  sofrido. Não é fácil uma tímida expor-se em palco. A vontade de bem expressar algo colide com a discrição da personalidade e o receio, sempre lá, de falhar.
Deste caminho dançado já longo valorizo a satisfação libertadora dos movimentos, a pessoa mais fluída em que me tornei, as amizades criadas, as aventuras em palco e fora dele.
Todos os anos eu piso os palcos, o nervoso miudinho da responsabilidade acompanha-me sempre, mas tudo é vivido de uma forma leve, descomprometida.
Por estes dias vivo a experiência intensa da preparação de um espectáculo. E desta vez não é leve nem descomprometido. É a vontade férrea de proporcionar um bom momento de evasão.
É a vontade férrea de desempoeirar, de libertar medos entretanto sedimentados.
E é a vontade férrea de pisar um palco e dar largas à emoção. De dar um salto sem chão à vista.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Curas

Este fim-de-semana tive um encontro especial num elevador. Encontrei a Doutora Brinquedos que, entre um piso e outro, me deu uma consulta rápida. O tempo suficiente para me relembrar a cura de muitos achaques.

"L'amitié est le meilleur  des remèdes"

E assim, nesta língua aveludada dos "ours", "ents" e "itiés", a receita teve o condão de provocar um sorriso quentinho com umas lagrimazitas de comoção.
É que este remédio não me falta. Para dar e receber.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Se desejar fosse ser

O poema, a melodia, ... a dança ... que me inquietam por estes dias.



Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Missões secretas

Há coisas em que eu invisto e não sei explicar bem porquê.
Motivações pessoais, ideologias, caprichos.
O que seja, é por bem.
"Aquela mulher é uma trombuda! Uma pessoa diz bom dia e ela não nos olha nem responde."
Ouvia isto constantemente da empregada de limpeza no trabalho.
"É capaz de estar maldisposta"
"Então está maldisposta todos os dias. Deixei de lhe dirigir palavra."
E naquele momento, como se de uma missão secreta se tratasse, estruturei uma espécie de plano:
* Sempre que passasse pela senhora diria um audível bom dia
* Situação anterior aplicar-se-ía mesmo que senhora estivesse de costas e não me visse
* Sorriso nos olhos e na boca acompanharia sempre o bom dia
* Teria cuidado redobrado para não sujar o que a senhora estivesse a limpar e pediria desculpa se interrompesse seu trabalho
* Se a encontrasse a meio do dia, apressada ou não, sorrir-lhe-ía sempre
* Começaria por cumprimentos suaves. Bom dias muito alegres e expansivos podem ter o mesmo efeito que a má educação. Incomoda as pessoas.
* Aos poucos introduziria umas palavras extras ao bom dia, o estado do tempo é sempre uma excelente deixa.
* Se senhora estivesse na sua pausa de trabalho e a encontrasse noutro lado que não a sua zona de trabalho, cumprimentá-la-ia na mesma (ainda não consegui perceber porque é que determinadas pessoas que se encontram regularmente num local não se cumprimentam em sítios diferentes)

A senhora não era fácil. Muito reservada, acabrunhada, de muito poucas falas, sempre descontente com tudo e todos. Mas eu estava decidida: um dia o cumprimento seria uma coisa perfeitamente natural e simpática entre nós.
"Bom dia" foi respondendo ela. Começou preguiçosa, desconfiadamente.
Se eu não tomasse a iniciativa, ignorava-me.
Ai é?!?! Então toma lá um bom dia bem sonoro e repenicado, reclamando a sua atenção na minha presença.
Sou sempre eu que tomo a iniciativa porque sou eu que chego mais tarde e sei que se a senhora pudesse de vez em quando lá se esquivava.
E os bons dias foram-se tornando naturais, já não lhe são tão custosos.
Por isso, hoje, quando a senhora me dirigiu um sorriso bem aberto, ainda eu não lhe tinha dito bom dia, fiquei meio desamparada. E logo de seguida fiquei felicíssima. Boa, Sandra! Missão cumprida!