domingo, 13 de outubro de 2013

Histórias dançadas



Desde o 1º momento que me senti entusiasmada com este projecto.
O seu crescimento foi um trabalho de amor. Como todo o Amor, teve os seus altos e baixos, mas no final o que conta é relação que se fortalece, o filho que nasce.
E acho que foi por isso este espectáculo foi amado por todos o que o viram. Porque era autêntico, simples, suave e feliz.

Uma dança são 3 histórias: a do coreógrafo, a dos bailarinos e a dos espectadores.
O menos importante é que sejam coincidentes. Opiniões, visões diferentes enriquecem as danças. O mais importante é que sejam histórias sentidas.

Fã que sou de histórias de bastidores deixo-vos uma espécie de raio x do que senti quando dancei e do que senti quando vi dançar.

*

Somos livres para celebrar
Somos livres para nos libertar
Como crianças brincando
Crianças sorrindo
Crianças sendo crianças


Balancé - Sara Tavares

Esta era a coreografia de abertura.
Era-nos pedido descontração, boa onda, tranquilidade, sorrir.
Imaginei-me num paraíso em que dançávamos uma espécie de celebração da vida, uma paz de espírito e felicidade sem fim, um estado amoroso tão completo que se tornava uma autêntica fortaleza aos problemas. As mãos serviram-me de colo.

*

Um sensação doce,
Um sombra bo magia,
Nha vida inteira m ta dá
Sô pa um segundo de bô sorriso.
Êh grandéza di amor
Bem maior ki tudo dôr
Abri asa e voá...


Muna Xeia - Sara Tavares

A paz, a harmonia dançadas.
A magia, pelos movimentos da Diana e da Cláudia.
O nervosismo, a ansiedade acalmavam enquanto esperava a entrada para a dança seguinte.
Vê-las em palco, eu que estava no escuro da coxia, sabia-me a segredo, tipo menina que espreita pela fechadura e vê algo que a deslumbra.

*

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta
Mas também, sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta
E olha quem, tem a fome da sinceridade ao menos não te dei a volta
E eu não volto a jogar à cabra-cega com usted
Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é esperta
Mas também, fugir pra ti faz parte de investir na pessoa certa.


Cabra Cega - Márcia

A inocência dançada.
Uma espécie de retorno à meninice em que tudo é descoberta feliz, sentida a cem vivida a mil.
Aquela inocência que nos vai sendo roubada sem darmos por ela e que depois tanto lutamos por resgatá-la. A partilha que não divide, mas multiplica.

*

Teatro "As Mulheres"
Fontes de inspiração: "Nós, as mulheres" de Maitena Burundarena, escritora e cartoonista argentina; e nós :)

A prova de fogo. Privada e do grupo.
Num espectáculo de dança, tornou-se um dos momentos favoritos do público.
Foi uma prova de esforço, criatividade, empatias, auto-crítica e risadas até mais não em conjunto.
O meu 2º momento preferido do espectáculo.
Desafiei-me a criar uma personagem completamente diferente de mim. Tive muito receio de não o conseguir, de cair no ridículo, mas assim que assumi o que queria fazer, o caminho a seguir só podia ser em frente. E valeu a pena, como valeu a pena.

*

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem

Desfado - Ana Moura

Porque o (des)fado é vivido por todas mulheres, belas, menos belas, insuportáveis e as mais meigas possíveis, as chatas, as interessantes, as pragmáticas, as sonhadoras,...
Um corridinho apressado tal como a vida, mas cujo nervo de viver está em cada poro de nós.

*

Vídeo "Mulheres"

Fomos ouvir a opinião de mulheres mais velhas sobre o que achavam sobre ser mulher.
Gravámos em vídeo momentos hilariantes, opiniões marotas, divertidas, sérias, mas o que me recordo mesmo é do sorriso orgulhoso enquanto falavam do ser mulher.

*

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu


A pele que há em mim - Márcia

3 bailarinas, 3 focos, 3 solos.
A mesma coreografia, intenções diferentes.
Belo esta coisa da expressividade. Uma mão, um braço, uma perna com o mesmo movimento e no entanto senti-o diferentemente em cada bailarina.
Um dos momentos altos do espectáculo, na minha opinião.
A prova de que a dança pode valorizar ainda mais um belíssimo poema e acordes.

*

Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado


Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver


Há uma música do Povo - Mariza

A minha melodia e dança favoritas.
Se é verdade que gosto da leveza, do (sor)riso, o meu coração bate mais forte pelo drama.
E nesta dança pude explorar o meu lado de "drama queen".
Para o expressar fui ao baú das mágoas, do desalento, da desilusão, da perda de esperança.
Espero um dia poder dançá-la novamente. Sem eu o esperar, tornou-se num dos momentos mais intensos que vivi em palco nestes anos de dança que já levo.

*
Quando me sinto só
Sabe-me a boca a fado
Lamento de quem chora
A sua triste mágoa
Rastejando no pó
Meu coração cansado
Lembra uma velha nora
Morrendo à sede de água.


Quando me sinto só - Mariza

Uma música poderosa só podia dar uma coreografia igualmente poderosa.
E que bem dançada foi pela gaiata de 18 anos :)
A provar que ali dentro não é só energia acumulada.
A 1ª vez que a vi em ensaio fiquei tão emocionada que a pikena levou um beijo bem repenicado pela emoção que em mim desencadeou.

*

A minha alma partiu-se como um vaso vazio
Caiu, partiu-se, caiu
O que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?

Alastra a escadaria atapetada de estrelas.
Ao fundo um caco brilha entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
E os deuses olham-no por não saber por que ficou ali.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.


Apontamento - Margarida Pinto

A coreografia de encerramento.
Quando esta música foi sugerida para dançar, foi amor à primeira.
Uma letra e melodias contagiantes.
Sentia como uma coreografia dedicada à alegria, à felicidade estampada no rosto porque a vida tem muito de belo para dar.
Para mim, significou também uma ode ao nosso trabalho de meses.
Não podíamos ter terminado da melhor maneira, abraçadas em círculo, a rir às gargalhadas :)

**
 
Dizem que quando nos emocionamos, sentimos. Estranha associação, no entanto.
Emocionamo-nos quando rimos durante uma comédia, quando coramos de vergonha, quando choramos de dor ou quando o ritmo cardíaco acelera na presença de alguém que nos atrai. As emoções nascem de forma selvagem, incontrolável e efémera, passageira. E mais: são públicas, é possível ver os seus efeitos.
Mas, como chamar ao que, algures no recato do nosso interior, encontra as emoções e constrói a manta do ser que vamos sendo?
Chamemos-lhe sentimentos. O sentimento é construído. Regista e decifra cada emoção que passa. O sentimento permanece, persiste. Pertence à esfera do privado. O sentimento só se vê reconhecido por quem o cria.
 
(Paula Mata)

 


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A árvore

Hoje ao passar numa árvore apeteceu-me sentar debaixo dela.
Encostada ao tronco, rodeada de sombra e cheirinho a relva fiquei ali, assim...
Não pensava em nada. Só contemplava e ouvia... um passarito lá ao longe,.. as pessoas mais perto...
Peguei no livro e li um pouco.
Depois, levantei-me, passei a mão pelo tronco como num "até logo" e fui trabalhar.

Checklist

  • Roupa dividida
  • Acessórios escolhidos
  • Penteados e maquilhagens decididos
  • Nervosismo
  • Texto decorado
  • Entradas e saídas de palco estudadas
  • Responsabilidade
  • Receios
  • Bilhetes reservados
  • Últimos acertos de lugares em palco
  • Ouvir sem conta as músicas
  • Relembrar mentalmente coreografias
  • Focar nas nuances de cada dança 
  • Alegria em dançar
  • Boa disposição
  • Publicitar o espectáculo
  • Respirar fundo
  • Confiança 
  • Últimos acertos nos tempos
  • Dicas para disfarçar possíveis falhas em palco
  • Sentir o palco
  • Olhar para plateia e imaginá-la cheia
  • Desfrutar cada momento da preparação do espectáculo
  • Tentar descontrair
  • E dançar, dançar, dançar... feliz por poder fazê-lo e mostrá-lo ao mundo

        
        

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Vulnerabilidade, vergonha e arena

Estar atenta ao que me rodeia, aos sinais que vão surgindo, coisas aleatórias ou nem tanto assim...
É a velha história de procurar respostas algures, em alguém... e que estão sempre em nós, ainda que tantas vezes veiculadas por outros...
Nos dois vídeos abaixo que vos deixo, e que espero que tenham a paciência para os ver porque são maravilhosos, ficaram-me 3 palavras: vulnerabilidade, vergonha e arena.
Vieram até mim através de duas pessoas: uma não a conheço pessoalmente, mas a sua escrita conquista-me e pacifica-me quase diariamente; a outra conheço-a há anos... e não a vejo há anos..., mas o virtual aproximou-nos.
E desta forma, sem que nada o previsse, assisto à abordagem de dois sentimentos que tantas vezes me ensombram e assombram. Por estes dias, mais vívidos e sofridos, por causa de um espectáculo em que entro e que me traz tanto de contentamento como de medo, de vontade de o sentir nas entranhas como o receio de falhar nessa intenção.
E estes vídeos foram aquela mão forte que te agarra quando quase tropeças. Uma dádiva em dia de reflexão. Uma ajuda, uma resposta, uma força. Não há mal algum em ser vulnerável, ter vergonha. Mal maior é não aproveitar isso para passos maiores e arriscados.
Na arena é que se combate, não fora dela.

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sem-abrigo

- Lá em baixo, à entrada do prédio, está um sem-abrigo, dizia o senhor no estabelecimento comercial.
- É o mesmo de ontem, não é? - perguntou a dona. Ainda ontem o vi, até me dói ver o coitado.
- Alguém pôs uma floreira no sítio onde o senhor se deita para ver se ele se vai embora, mas ele agora foi para o outro lado da porta. Qualquer dia põem lá uma floreira também.
Quando desci o elevador esperava encontrar o sem-abrigo. Estava já deitado, a dormir. Eram 20hrs.
- Senhor...
O senhor abriu os olhos a custo, um olhar doloroso, lamacento.
- Tome,... isto é para si.
Ele olhava-me como se não acreditasse que eu me estivesse a dirigir a ele, mas a sua mão abriu-se instantaneamente. Mesmo sem olhar para o que lhe dava.
Quando sentiu o que era, fechou a mão e expirou "oh menina..."
Vim-me embora, parecia que tinha o meu pescoço agrilhoado.
Ser sem-abrigo deve ser como ser-se expropriado da sua própria pessoa.
Ser sem-abrigo num país estrangeiro deve ser como não ter sítio na vida...

domingo, 29 de setembro de 2013

Urnas carregadas de Esperança

As primeiras eleições em que votei, acabadinha de fazer 18 anos, foi para a Presidência da República.
Lembro-me que mal pude começar a tratar do cartão de eleitor, fi-lo. Para mim, este cartão era de grande importância, logo a seguir ao BI e cartão de contribuinte. Ainda hoje penso assim.
Eu queria mesmo votar,  estava ansiosa pelo dia, pela 1ª vez achava que estava a contribuir com algo para o país.
De lá para cá só falhei uma vez o meu dever de voto porque estava ausente do país. Não foi premeditado, mas senti-me em falta. Actualmente, dia de eleições não é para estar ausente, organizo a minha vida nesse sentido. E se tiver de me ausentar... as urnas abrem às 8hrs. Em 5 minutos o meu dever está cumprido.
De lá para cá desiludi-me com a política, mas gosto de uma boa tertúlia sobre a mesma. Mais do que a opinião dos políticos da praça, gosto de ouvir a opinião das pessoas e "entendidos".
De lá para cá descobri que sou apartidária, que acredito em pessoas e projectos.
De lá para cá descobri que não há pessoas e projectos perfeitos.
De lá para cá descobri que muito boas intenções são barradas e nunca saem do papel.
De lá para cá descobri que o melhor dos projectos nunca reúne consenso.
De lá para cá descobri que o pior dos projectos agrada sempre a alguém.
De lá para cá descobri que abomino obra feita à custa do endividamento brutal, do engano e ilusão dos que trabalham e não vêm pagamento tão cedo. É um dos mais importantes parâmetros para definir o meu voto. Hoje, mais uma vez, vai defini-lo.
Mas voto.
Porque é um dever cívico. É o meu país, por muito desiludida e descontente que possa estar.
É a minha maneira de dizer que tenho esperança em dias melhores, que acredito e confio naquelas pessoas que são mais corajosas que eu, que vão além do voto e agem, espero, em prol dos outros.
Sei de trabalho muito bem feito, muitas horas dadas aos outros, a pensar num bem maior e geral.
Por isso não aceito razões para não votar.
Como se já não houvesse mais nada a ganhar e tudo a perder.
Porque a obra feita não nos atinge directamente, mas outros.
Porque há corrupção. Como se não votando a estivéssemos a impedir.
O desapontamento não pode ser um motivo. Se nos abstivéssemos em todas as nossas desilusões, o nosso mundo não melhorava. Se não gostamos e aceitamos isso na nossa vida...
Para o bem e para o mal somos um povo. Pensar e agir no geral é pensar e agir  em particular.
Os outros somos nós.
Já votei :)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Saltos sem chão

A natureza fez-me reservada, tímida e ... discreta. O que a maior parte das vezes é uma chatice.
O esforço em provar o que quer que seja é sempre redobrado, os receios são múltiplos, o deixar-me conhecer torna-se demorado, o que também me priva de conhecer mais fácil e naturalmente outras pessoas. É só perdas.
Não foi surpresa para mim quando a minha família se espantou pelo meu interesse no teatro, primeiro, na dança, depois.
Antes não me surpreendeu o meu gosto pela arte de representar e de dançar. Era um mundo de sonhos. O que me surpreendeu foi a força em tentar tornar esse mundo um pouco mais real.
O teatro ocupou-me pouco tempo, mas foram meses mágicos de provas dadas e medos ultrapassados. O pouco tempo dedicado idealizou este amor. Hoje satisfaço o meu bichinho vendo teatro, respirando os teatros que visito, suspirando nos teatros onde me sento.
Mudança de vida encaminhou-me para outro amor, a dança. Este mais longo, como tal mais vivido e  sofrido. Não é fácil uma tímida expor-se em palco. A vontade de bem expressar algo colide com a discrição da personalidade e o receio, sempre lá, de falhar.
Deste caminho dançado já longo valorizo a satisfação libertadora dos movimentos, a pessoa mais fluída em que me tornei, as amizades criadas, as aventuras em palco e fora dele.
Todos os anos eu piso os palcos, o nervoso miudinho da responsabilidade acompanha-me sempre, mas tudo é vivido de uma forma leve, descomprometida.
Por estes dias vivo a experiência intensa da preparação de um espectáculo. E desta vez não é leve nem descomprometido. É a vontade férrea de proporcionar um bom momento de evasão.
É a vontade férrea de desempoeirar, de libertar medos entretanto sedimentados.
E é a vontade férrea de pisar um palco e dar largas à emoção. De dar um salto sem chão à vista.