Há palavras pelas quais tenho especial carinho, seja pelo seu significado seja pela sua sonoridade.
Coisas minhas... (Dou por mim muitas vezes a prestar atenção à sonoridade do meu nome, soletrando mentalmente as duas sílabas que o compõem.)
Uma das minhas palavras de eleição é confiança. Há um tom aveludado na mesma que me faz lembrar colo e proteção.
E depois considero-a uma qualidade fundamental numa pessoa, daquelas que define o tipo de relação com outros.
Podemos ter muitos amigos, mas confiamos em todos?
Quanto a confiança ajuda a definir os das nossas relações entre "conhecidos" e amigos"?
Por quantos amigos teremos mais amor e carinho que familiares devido à confiança que nos despertam?
Desperto confiança?
É uma das batalhas da minha vida. Por isso, quando sinto que confiam em mim, toda eu enterneço e penso que talvez - afinal -, esteja a traçar um bom caminho.
Por estes tempos tenho sido presenteada com colos destes:
♣ Quando uma amiga cobra as minhas ausências e confidencia "o meu filho está farto de perguntar quando vais lá a casa."
♣ Quando uns bracinhos pequenos se tornam imensos num abraço apertadinho, apertadinho e me chamam "tia xana"
♣ Quando a 300 km de distância me perguntam "Quando vens a Lisboa para nos conhecermos?"
♣ Quando (confiança maior) me apresentam num primeiro encontro o seu filho
♣ Quando, sem me conhecer de lado nenhum até há instantes, aceitam a minha mão para atravessar a rua
♣ Quando os clientes me dizem que confiam em mim
♣ Quando me convidam para dançar em algum sítio
♣ Quando me falam dos seus piores receios
♣ Quando me falam das suas falhas
♣ Quando me contam um segredo
♣ Quando me abrem as portas de suas casas
Obrigada, das profundezas do coração.
Sabedoria ♣ Retalho ♣ Aventura ♣ Colo ♣ Balancé ♣ Inocência ♣ Embalo ♣ Cinema ♣ Lisboa ♣ Água.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Magias
Hoje acordei como o dia, cinzento e choroso.
De regresso do almoço, nos meus pensamentos lá longe, sou chamada à
terra por um toque no ombro.“Hum” e mostra-me uma petição para assinar. Era para uma construção de uma casa de acolhimento de surdos-mudos.
Com um pé na terra e outro sei lá onde, neguei, continuando caminho.
A rapariga volta a tocar-me “hum” e insiste para eu assinar.
Não é preciso muito comigo. Começo a preencher.
Ela interrompe “hum”, passa a mão pelo rosto dela e desenha um beijo para mim.
Eu olho para ela e continuo.
“Hum” interrompe novamente. Olho-a. Então passa a mão pelo rosto dela, tipo mágica faz nascer um sorriso, e desenha novamente um beijo para mim.
Conseguiu o meu sorriso…
domingo, 13 de outubro de 2013
Histórias dançadas
Desde o 1º momento que me senti entusiasmada com este projecto.
O seu crescimento foi um trabalho de amor. Como todo o Amor, teve os seus altos e baixos, mas no final o que conta é relação que se fortalece, o filho que nasce.
E acho que foi por isso este espectáculo foi amado por todos o que o viram. Porque era autêntico, simples, suave e feliz.
Uma dança são 3 histórias: a do coreógrafo, a dos bailarinos e a dos espectadores.
O menos importante é que sejam coincidentes. Opiniões, visões diferentes enriquecem as danças. O mais importante é que sejam histórias sentidas.
Fã que sou de histórias de bastidores deixo-vos uma espécie de raio x do que senti quando dancei e do que senti quando vi dançar.
*
Somos livres para celebrar
Somos livres para nos libertar
Como crianças brincando
Crianças sorrindo
Crianças sendo crianças
Balancé - Sara Tavares
Esta era a coreografia de abertura.
Era-nos pedido descontração, boa onda, tranquilidade, sorrir.
Imaginei-me num paraíso em que dançávamos uma espécie de celebração da vida, uma paz de espírito e felicidade sem fim, um estado amoroso tão completo que se tornava uma autêntica fortaleza aos problemas. As mãos serviram-me de colo.
*
Um sensação doce,
Um sombra bo magia,
Nha vida inteira m ta dá
Sô pa um segundo de bô sorriso.
Êh grandéza di amor
Bem maior ki tudo dôr
Abri asa e voá...
Muna Xeia - Sara Tavares
A paz, a harmonia dançadas.
A magia, pelos movimentos da Diana e da Cláudia.
O nervosismo, a ansiedade acalmavam enquanto esperava a entrada para a dança seguinte.
Vê-las em palco, eu que estava no escuro da coxia, sabia-me a segredo, tipo menina que espreita pela fechadura e vê algo que a deslumbra.
*
Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta
Mas também, sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta
E olha quem, tem a fome da sinceridade ao menos não te dei a volta
E eu não volto a jogar à cabra-cega com usted
Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é esperta
Mas também, fugir pra ti faz parte de investir na pessoa certa.
Cabra Cega - Márcia
A inocência dançada.
Uma espécie de retorno à meninice em que tudo é descoberta feliz, sentida a cem vivida a mil.
Aquela inocência que nos vai sendo roubada sem darmos por ela e que depois tanto lutamos por resgatá-la. A partilha que não divide, mas multiplica.
*
Teatro "As Mulheres"
Fontes de inspiração: "Nós, as mulheres" de Maitena Burundarena, escritora e cartoonista argentina; e nós :)
A prova de fogo. Privada e do grupo.
Num espectáculo de dança, tornou-se um dos momentos favoritos do público.
Foi uma prova de esforço, criatividade, empatias, auto-crítica e risadas até mais não em conjunto.
O meu 2º momento preferido do espectáculo.
Desafiei-me a criar uma personagem completamente diferente de mim. Tive muito receio de não o conseguir, de cair no ridículo, mas assim que assumi o que queria fazer, o caminho a seguir só podia ser em frente. E valeu a pena, como valeu a pena.
*
Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Desfado - Ana Moura
Porque o (des)fado é vivido por todas mulheres, belas, menos belas, insuportáveis e as mais meigas possíveis, as chatas, as interessantes, as pragmáticas, as sonhadoras,...
Um corridinho apressado tal como a vida, mas cujo nervo de viver está em cada poro de nós.
*
Vídeo "Mulheres"
Fomos ouvir a opinião de mulheres mais velhas sobre o que achavam sobre ser mulher.
Gravámos em vídeo momentos hilariantes, opiniões marotas, divertidas, sérias, mas o que me recordo mesmo é do sorriso orgulhoso enquanto falavam do ser mulher.
*
Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu
A pele que há em mim - Márcia
3 bailarinas, 3 focos, 3 solos.
A mesma coreografia, intenções diferentes.
Belo esta coisa da expressividade. Uma mão, um braço, uma perna com o mesmo movimento e no entanto senti-o diferentemente em cada bailarina.
Um dos momentos altos do espectáculo, na minha opinião.
A prova de que a dança pode valorizar ainda mais um belíssimo poema e acordes.
*
Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver
Há uma música do Povo - Mariza
A minha melodia e dança favoritas.
Se é verdade que gosto da leveza, do (sor)riso, o meu coração bate mais forte pelo drama.
E nesta dança pude explorar o meu lado de "drama queen".
Para o expressar fui ao baú das mágoas, do desalento, da desilusão, da perda de esperança.
Espero um dia poder dançá-la novamente. Sem eu o esperar, tornou-se num dos momentos mais intensos que vivi em palco nestes anos de dança que já levo.
*
Quando me sinto só
Sabe-me a boca a fado
Lamento de quem chora
A sua triste mágoa
Rastejando no pó
Meu coração cansado
Lembra uma velha nora
Morrendo à sede de água.
Quando me sinto só - Mariza
Uma música poderosa só podia dar uma coreografia igualmente poderosa.
E que bem dançada foi pela gaiata de 18 anos :)
A provar que ali dentro não é só energia acumulada.
A 1ª vez que a vi em ensaio fiquei tão emocionada que a pikena levou um beijo bem repenicado pela emoção que em mim desencadeou.
*
A minha alma partiu-se como um vaso vazio
Caiu, partiu-se, caiuO que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?
Alastra a escadaria atapetada de estrelas.
Ao fundo um caco brilha entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
E os deuses olham-no por não saber por que ficou ali.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Apontamento - Margarida Pinto
A coreografia de encerramento.
Quando esta música foi sugerida para dançar, foi amor à primeira.
Uma letra e melodias contagiantes.
Sentia como uma coreografia dedicada à alegria, à felicidade estampada no rosto porque a vida tem muito de belo para dar.
Para mim, significou também uma ode ao nosso trabalho de meses.
Não podíamos ter terminado da melhor maneira, abraçadas em círculo, a rir às gargalhadas :)
**
Dizem que quando nos
emocionamos, sentimos. Estranha associação, no entanto.
Emocionamo-nos
quando rimos durante uma comédia, quando coramos de vergonha, quando
choramos de dor ou quando o ritmo cardíaco acelera na presença de
alguém que nos atrai. As emoções nascem de forma selvagem,
incontrolável e efémera, passageira. E mais: são públicas, é
possível ver os seus efeitos.
Mas, como chamar ao que,
algures no recato do nosso interior, encontra as emoções e constrói
a manta do ser que vamos sendo?
Chamemos-lhe sentimentos.
O sentimento é construído. Regista e decifra cada emoção que
passa. O sentimento permanece, persiste. Pertence à esfera do
privado. O sentimento só se vê reconhecido por quem o cria.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
A árvore
Hoje ao passar numa árvore apeteceu-me sentar debaixo dela.
Encostada ao tronco, rodeada de sombra e cheirinho a relva fiquei ali, assim...
Não pensava em nada. Só contemplava e ouvia... um passarito lá ao longe,.. as pessoas mais perto...
Peguei no livro e li um pouco.
Depois, levantei-me, passei a mão pelo tronco como num "até logo" e fui trabalhar.
Encostada ao tronco, rodeada de sombra e cheirinho a relva fiquei ali, assim...
Não pensava em nada. Só contemplava e ouvia... um passarito lá ao longe,.. as pessoas mais perto...
Peguei no livro e li um pouco.
Depois, levantei-me, passei a mão pelo tronco como num "até logo" e fui trabalhar.
Checklist
- Roupa dividida ✔
- Acessórios escolhidos ✔
- Penteados e maquilhagens decididos ✔
- Nervosismo ✔
- Texto decorado ✔
- Entradas e saídas de palco estudadas ✔
- Responsabilidade ✔
- Receios ✔
- Bilhetes reservados ✔
- Últimos acertos de lugares em palco ✔
- Ouvir sem conta as músicas ✔
- Relembrar mentalmente coreografias ✔
- Focar nas nuances de cada dança ✔
- Alegria em dançar ✔
- Boa disposição ✔
- Publicitar o espectáculo ✔
- Respirar fundo ✔
- Confiança ✔
- Últimos acertos nos tempos ✔
- Dicas para disfarçar possíveis falhas em palco ✔
- Sentir o palco ✔
- Olhar para plateia e imaginá-la cheia ✔
- Desfrutar cada momento da preparação do espectáculo ✔
- Tentar descontrair ✔
- E dançar, dançar, dançar... feliz por poder fazê-lo e mostrá-lo ao mundo ✔
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Vulnerabilidade, vergonha e arena
Estar atenta ao que me rodeia, aos sinais que vão surgindo, coisas aleatórias ou nem tanto assim...
É a velha história de procurar respostas algures, em alguém... e que estão sempre em nós, ainda que tantas vezes veiculadas por outros...
Nos dois vídeos abaixo que vos deixo, e que espero que tenham a paciência para os ver porque são maravilhosos, ficaram-me 3 palavras: vulnerabilidade, vergonha e arena.
Vieram até mim através de duas pessoas: uma não a conheço pessoalmente, mas a sua escrita conquista-me e pacifica-me quase diariamente; a outra conheço-a há anos... e não a vejo há anos..., mas o virtual aproximou-nos.
E desta forma, sem que nada o previsse, assisto à abordagem de dois sentimentos que tantas vezes me ensombram e assombram. Por estes dias, mais vívidos e sofridos, por causa de um espectáculo em que entro e que me traz tanto de contentamento como de medo, de vontade de o sentir nas entranhas como o receio de falhar nessa intenção.
E estes vídeos foram aquela mão forte que te agarra quando quase tropeças. Uma dádiva em dia de reflexão. Uma ajuda, uma resposta, uma força. Não há mal algum em ser vulnerável, ter vergonha. Mal maior é não aproveitar isso para passos maiores e arriscados.
Na arena é que se combate, não fora dela.
É a velha história de procurar respostas algures, em alguém... e que estão sempre em nós, ainda que tantas vezes veiculadas por outros...
Nos dois vídeos abaixo que vos deixo, e que espero que tenham a paciência para os ver porque são maravilhosos, ficaram-me 3 palavras: vulnerabilidade, vergonha e arena.
Vieram até mim através de duas pessoas: uma não a conheço pessoalmente, mas a sua escrita conquista-me e pacifica-me quase diariamente; a outra conheço-a há anos... e não a vejo há anos..., mas o virtual aproximou-nos.
E desta forma, sem que nada o previsse, assisto à abordagem de dois sentimentos que tantas vezes me ensombram e assombram. Por estes dias, mais vívidos e sofridos, por causa de um espectáculo em que entro e que me traz tanto de contentamento como de medo, de vontade de o sentir nas entranhas como o receio de falhar nessa intenção.
E estes vídeos foram aquela mão forte que te agarra quando quase tropeças. Uma dádiva em dia de reflexão. Uma ajuda, uma resposta, uma força. Não há mal algum em ser vulnerável, ter vergonha. Mal maior é não aproveitar isso para passos maiores e arriscados.
Na arena é que se combate, não fora dela.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Sem-abrigo
- Lá em baixo, à entrada do prédio, está um sem-abrigo, dizia o senhor no estabelecimento comercial.
- É o mesmo de ontem, não é? - perguntou a dona. Ainda ontem o vi, até me dói ver o coitado.
- Alguém pôs uma floreira no sítio onde o senhor se deita para ver se ele se vai embora, mas ele agora foi para o outro lado da porta. Qualquer dia põem lá uma floreira também.
Quando desci o elevador esperava encontrar o sem-abrigo. Estava já deitado, a dormir. Eram 20hrs.
- Senhor...
O senhor abriu os olhos a custo, um olhar doloroso, lamacento.
- Tome,... isto é para si.
Ele olhava-me como se não acreditasse que eu me estivesse a dirigir a ele, mas a sua mão abriu-se instantaneamente. Mesmo sem olhar para o que lhe dava.
Quando sentiu o que era, fechou a mão e expirou "oh menina..."
Vim-me embora, parecia que tinha o meu pescoço agrilhoado.
Ser sem-abrigo deve ser como ser-se expropriado da sua própria pessoa.
Ser sem-abrigo num país estrangeiro deve ser como não ter sítio na vida...
- É o mesmo de ontem, não é? - perguntou a dona. Ainda ontem o vi, até me dói ver o coitado.
- Alguém pôs uma floreira no sítio onde o senhor se deita para ver se ele se vai embora, mas ele agora foi para o outro lado da porta. Qualquer dia põem lá uma floreira também.
Quando desci o elevador esperava encontrar o sem-abrigo. Estava já deitado, a dormir. Eram 20hrs.
- Senhor...
O senhor abriu os olhos a custo, um olhar doloroso, lamacento.
- Tome,... isto é para si.
Ele olhava-me como se não acreditasse que eu me estivesse a dirigir a ele, mas a sua mão abriu-se instantaneamente. Mesmo sem olhar para o que lhe dava.
Quando sentiu o que era, fechou a mão e expirou "oh menina..."
Vim-me embora, parecia que tinha o meu pescoço agrilhoado.
Ser sem-abrigo deve ser como ser-se expropriado da sua própria pessoa.
Ser sem-abrigo num país estrangeiro deve ser como não ter sítio na vida...
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