quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sensores

Há dias que apetece dar, mas receber de volta.
Desculpem-me o pouco católico da coisa, mas como ouvi alguém "entendido" dizer por estes dias nós gostamos que nos tratem bem.
A química do amor explica isso fascinantemente.
Fico-me pelo sensitivo, sabe-me lindamente ser acarinhada.
Como diz o ditado popular "quem não sente não é filho de boa gente". E eu sou filha de boa gente.
Por isso, quando recebo uma prova de carinho inesperada que me faz concluir que não sou somente mais um ser  à face da terra , activam-se  os meus sensores da felicidade. Diz mais uma vez o entendido. Eu só sinto.
É que isto de acarinhar, amar, dar, animar, fazer sorrir, ouvir, estar atenta, apoiar, compreender, aceitar, ... funciona melhor ... reciprocamente.
Talvez por isso quando sou bafejada por ditos como "os meninos falam frequentemente de ti" eu esparralho-me toda e demora um pouco a apanhar os pedaços. Aqueles pedaços que perfazem um todo e que tantas vezes parecem desconexos.
Bem sei que nós mulheres funcionamos muito "olha para o que eu não digo" e que por vezes somos difíceis de descortinar.
Só se pede um pouco de atenção e... carinho.
 

 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sabe-me a boca a fado

"Quando me sinto só sabe-me a boca a fado."
 
 
Hoje ouvi isto e alojou-se.
Não estava só e fiquei.
 
E embalei assim pela noite, em ilha lá longe.
 
 


terça-feira, 29 de outubro de 2013

A viagem de comboio inusitada. Isto não é ficção.

(Para memória futura)

(D - desconhecido; S - Sandra)

A caminho de Lisboa, aos 23 de Junho de 2013:

D - A menina é de Aveiro?
S - Sou.
D- Eu sou do Porto. O bilheteiro ainda não passou aqui. Está ali na lengalenga. Podia ter vindo à pato até aqui.
S - ...
D - Engajou ali com uma moça nova e não a larga. A mulher em casa, ele a meter conversa... Está a compreender a situação? É um pássaro vivido.
S - ...
D - Vai para onde?
S - Lisboa
D - Eu vou para Pombal. Vai a uma festa?
S - Vou ter com amigos.
D - (sorri manhosamente) Vai é ter com o namorado...
S - ...
D - Quanto paga de bilhete?
S - Eur 18.00
D - Se o seu namorado a viesse buscar ficava mais bem servida. Tomavam o pequeno almoço, íam até à Mealhada comer um leitãozinho e depois íam para Cascais (que aquela água não vale nada, é cá um frio acima, aquilo é só rochas!!)
S - ...
D- Gosta de leitão?
S - Gosto...
D- E de borrego? Um bom borrego assado?
S - Gosto...
D - E de vinho? Branco?
S - Gosto...
D - No Fundão comi naqueles restaurantes de rua um borrego, era cá uma pratada de carne só com um bocadinho da batatas. Nem lhes toquei tanta era a carne. Uma coisa que nós os motoristas (eu sou motorista, sabe?) nos orgulhamos é de saber onde comer bem, de conhecer as estradas todas e perceber de mulheres. Ahahah, não me leve a mal...
S - ...
D - O bilheteiro continua na conversa. Já deve ter o nr. dela. Se eu não estivesse aqui, ele punha-se na converseta com você!
D- Tem filhos?
S - Não...
D -  Porquê?!?! Não quer?!?!?!
S - Quero.
D - Você é nova, não é?
S - Sou.
D - Que idade tem?
S - Que idade me dá?
D - 27
S - Acertou em cheio, tem bom olho...
D - Que idade me dá?
S - 33 (ele percebeu 23)
D - (ri-se) 23 tenho eu de camionista e 17 de carteira profissional. Já conheço o mundo todo! Tenho 45 anos.
D - Pode aproveitar e ter filhos com este namorado. Quer ter um filho ou filha? Sabe como fazer um filho ou filha? Sabe que é o homem que decide?
S - Sei. Vocês decidem e nós carregamos...
D - Quer saber como se faz? Mas isto é segredo, eu sei a verdade. Não pode andar aí a contar a toda a gente...
(ups)
S - Então, como se faz uma filha?
D - Quer mesmo saber?
(Ajeita-se na cadeira e por momentos acho que vai simular o acto)
D - Se quer ter uma filha, o homem tem de ser ano ímpar!
S - ??? Como assim?
D - O homem tem de ter 23, 25, 33, 'tá aperceber? Se for filho é ao contrário. Acredite no que lhe digo, é mesmo assim. Mas não ande por aí a dizer...
D - Está a ver os homossexuais?
S - Sim?!... (baralhada)
D - É por isto. Se uma filha nascer no ano par do pai vai ter hormonas masculinas e se um filho nascer no ano ímpar do pai vai ter hormonas femininas.
D- Olhe, o bilheteiro já aí vem. Paguei Eur 14,70 para nada. Lá vem ele todo sorridente, com a sua barriguinha. Típico português...
(Ouve-se um barulho estranho nos carris)
D - Rebentou um pneu, o cabrão!  Ahahahah
D - Conhece o Sida? Já ouviu falar?
S - Sim...
D - Donde vem o Sida? Sabe o que é?
S - É um vírus...
D - Não!! É um gene!! Está a ver Atlanta, nos EUA? Foram uns cientistas que o criaram. Ainda o seu pai era jovem e já se sabia que havia muita gente na terra e que não ía haver comida para todos. Era preciso matar pessoas.
D - Sabe quem são as pessoas mais valiosas no mundo neste momento?
S - Não...
D - É um casal de portugueses!!! Descobriram a cura do Sida e de outras doenças, mas agora estão escondidos. Levaram-nos para umas instalações. Descobriram a célula de Deus.
 (Ía-me engasgando)
D - Eles descobriram um gene, que uma pessoa pode ficar viva 100, 200, 300, 400 anos e mais. Ter filhos e fazer uma vida normal. ´Tá a perceber?
S - Sim...
D - Eu 'tou a falar isto tudo que é para você não ir calada, a olhar só para a janela. Assim vamos falando. Mas isto tudo que lhe digo é verdade.
S - ...
D - Desculpe que lhe diga, mas é bonita. Tem uns olhos bonitos.
S - Obrigada.
D - Gosta de comer?
S - Gosto.
D - Já almoçou?
S - Sim, já.
D - Ahhh, já está almoçada!! Um bifinho?
S - Sim
D - Uma batatinha frita?
S - Sim
D - Um ovo a cavalo?
S - Sim
(Almocei uma salada)
D - Sabe uma salada boa para os seus olhos? Um pote de iogurte, uma courgette ou pepino, uma cebola, um alho. Tudo muito migadinho, 'tá a ver? E mistura no iogurte e depois põe por cima da salada. Eu já percorri mundo, já comi de tudo. O comer faz bem ao espírito. Assim, anda sempre com um sorriso e não precisa dos outros. Qual é o seu sonho? Agora?
(Apanha-me desprevenida)
S - Tantos, não sei :)
D - Sabe qual é o meu? Trabalhar seis meses e nos outros seis pegar nos meus filhos e passear num veleiro. Já andei a ver preços e já se compra um veleiro por dez mil euros. Eu tenho a carta de mar. Sabe quanto se paga por ter um barco atracado? Uns setenta euros. Foi a menina que escolheu este lugar?
S - Fui.
D - Como é que escolheu?
S - De facto só escolhi que queria frente e janela. O lugar definiu a CP.
D - E como é que sabe que é aqui o seu lugar? Que é aqui que deve vir sentada?
S - O bilhete tem o nr da carruagem e o nr de lugar...
D - E como sabe que é esta a sua carruagem?
S - Vi o nr da carruagem antes de entrar...
D - Aahhh, um número.... Eu entrei numa porta ao calha. Eu mostro o bilhete ao contrário. Se o bilheteiro reclamar pergunto-lhe o que é que ele tem a haver com isso.
(Mostra-me o bilhete, aquela não era a sua carruagem)
D - Então não tem filhos?
S - Não...
D - Eu tenho 4.  3 rapazes da mesma mãe e uma rapariga de 17 anos.
(Façam as contas...)
D - (sacando de uma foto) Este é o meu mais novo, tem 4 anos. O sacana só gosta de playstation.
Os filhos é o melhor que nós temos...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

♣ Confiança

Há palavras pelas quais tenho especial carinho, seja pelo seu significado seja pela sua sonoridade.
Coisas minhas... (Dou por mim muitas vezes a prestar atenção à sonoridade do meu nome, soletrando mentalmente as duas sílabas que o compõem.)
Uma das minhas palavras de eleição é confiança. Há um tom aveludado na mesma que me faz lembrar colo e proteção.
E depois considero-a uma qualidade fundamental numa pessoa, daquelas que define o tipo de relação com outros.
Podemos ter muitos amigos, mas confiamos em todos?
Quanto a confiança ajuda a definir os das nossas relações entre "conhecidos" e amigos"?
Por quantos amigos teremos mais amor e carinho que familiares devido à confiança que nos despertam?
Desperto confiança? 
É uma das batalhas da minha vida. Por isso, quando sinto que confiam em mim, toda eu enterneço e penso que talvez - afinal -, esteja a traçar um bom caminho.
Por estes tempos tenho sido presenteada com colos destes:

 ♣ Quando uma amiga cobra as minhas ausências e confidencia "o meu filho está farto de perguntar quando vais lá a casa."
 ♣ Quando uns bracinhos pequenos se tornam imensos num abraço apertadinho, apertadinho e me chamam "tia xana"
♣  Quando a 300 km de distância me perguntam "Quando vens a Lisboa para nos conhecermos?"
♣  Quando (confiança maior) me apresentam num primeiro encontro o seu filho
 ♣ Quando, sem me conhecer de lado nenhum até há instantes, aceitam a minha mão para atravessar a rua
♣  Quando os clientes me dizem que confiam em mim
♣  Quando me convidam para dançar em algum sítio
♣  Quando me falam dos seus piores receios
♣  Quando me falam das suas falhas
♣  Quando me contam um segredo
♣  Quando me abrem as portas de suas casas

Obrigada, das profundezas do coração.

Sabedoria  Retalho ♣ Aventura ♣  Colo ♣ Balancé Inocência Embalo Cinema Lisboa ♣ Água.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Magias


Hoje acordei como o dia, cinzento e choroso.
De regresso do almoço, nos meus pensamentos lá longe, sou chamada à terra por um toque no ombro.
“Hum” e mostra-me uma petição para assinar. Era para uma construção de uma casa de acolhimento de surdos-mudos.
Com um pé na terra e outro sei lá onde, neguei, continuando caminho.
A rapariga volta a tocar-me “hum” e insiste para eu assinar.
Não é preciso muito comigo. Começo a preencher.
Ela interrompe “hum”, passa a mão pelo rosto dela e desenha um beijo para mim.
Eu olho para ela e continuo.
“Hum” interrompe novamente. Olho-a. Então passa a mão pelo rosto dela, tipo mágica faz nascer um sorriso, e desenha novamente um beijo para mim.
Conseguiu o meu sorriso…

domingo, 13 de outubro de 2013

Histórias dançadas



Desde o 1º momento que me senti entusiasmada com este projecto.
O seu crescimento foi um trabalho de amor. Como todo o Amor, teve os seus altos e baixos, mas no final o que conta é relação que se fortalece, o filho que nasce.
E acho que foi por isso este espectáculo foi amado por todos o que o viram. Porque era autêntico, simples, suave e feliz.

Uma dança são 3 histórias: a do coreógrafo, a dos bailarinos e a dos espectadores.
O menos importante é que sejam coincidentes. Opiniões, visões diferentes enriquecem as danças. O mais importante é que sejam histórias sentidas.

Fã que sou de histórias de bastidores deixo-vos uma espécie de raio x do que senti quando dancei e do que senti quando vi dançar.

*

Somos livres para celebrar
Somos livres para nos libertar
Como crianças brincando
Crianças sorrindo
Crianças sendo crianças


Balancé - Sara Tavares

Esta era a coreografia de abertura.
Era-nos pedido descontração, boa onda, tranquilidade, sorrir.
Imaginei-me num paraíso em que dançávamos uma espécie de celebração da vida, uma paz de espírito e felicidade sem fim, um estado amoroso tão completo que se tornava uma autêntica fortaleza aos problemas. As mãos serviram-me de colo.

*

Um sensação doce,
Um sombra bo magia,
Nha vida inteira m ta dá
Sô pa um segundo de bô sorriso.
Êh grandéza di amor
Bem maior ki tudo dôr
Abri asa e voá...


Muna Xeia - Sara Tavares

A paz, a harmonia dançadas.
A magia, pelos movimentos da Diana e da Cláudia.
O nervosismo, a ansiedade acalmavam enquanto esperava a entrada para a dança seguinte.
Vê-las em palco, eu que estava no escuro da coxia, sabia-me a segredo, tipo menina que espreita pela fechadura e vê algo que a deslumbra.

*

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta
Mas também, sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta
E olha quem, tem a fome da sinceridade ao menos não te dei a volta
E eu não volto a jogar à cabra-cega com usted
Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é esperta
Mas também, fugir pra ti faz parte de investir na pessoa certa.


Cabra Cega - Márcia

A inocência dançada.
Uma espécie de retorno à meninice em que tudo é descoberta feliz, sentida a cem vivida a mil.
Aquela inocência que nos vai sendo roubada sem darmos por ela e que depois tanto lutamos por resgatá-la. A partilha que não divide, mas multiplica.

*

Teatro "As Mulheres"
Fontes de inspiração: "Nós, as mulheres" de Maitena Burundarena, escritora e cartoonista argentina; e nós :)

A prova de fogo. Privada e do grupo.
Num espectáculo de dança, tornou-se um dos momentos favoritos do público.
Foi uma prova de esforço, criatividade, empatias, auto-crítica e risadas até mais não em conjunto.
O meu 2º momento preferido do espectáculo.
Desafiei-me a criar uma personagem completamente diferente de mim. Tive muito receio de não o conseguir, de cair no ridículo, mas assim que assumi o que queria fazer, o caminho a seguir só podia ser em frente. E valeu a pena, como valeu a pena.

*

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem

Desfado - Ana Moura

Porque o (des)fado é vivido por todas mulheres, belas, menos belas, insuportáveis e as mais meigas possíveis, as chatas, as interessantes, as pragmáticas, as sonhadoras,...
Um corridinho apressado tal como a vida, mas cujo nervo de viver está em cada poro de nós.

*

Vídeo "Mulheres"

Fomos ouvir a opinião de mulheres mais velhas sobre o que achavam sobre ser mulher.
Gravámos em vídeo momentos hilariantes, opiniões marotas, divertidas, sérias, mas o que me recordo mesmo é do sorriso orgulhoso enquanto falavam do ser mulher.

*

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu


A pele que há em mim - Márcia

3 bailarinas, 3 focos, 3 solos.
A mesma coreografia, intenções diferentes.
Belo esta coisa da expressividade. Uma mão, um braço, uma perna com o mesmo movimento e no entanto senti-o diferentemente em cada bailarina.
Um dos momentos altos do espectáculo, na minha opinião.
A prova de que a dança pode valorizar ainda mais um belíssimo poema e acordes.

*

Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado


Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver


Há uma música do Povo - Mariza

A minha melodia e dança favoritas.
Se é verdade que gosto da leveza, do (sor)riso, o meu coração bate mais forte pelo drama.
E nesta dança pude explorar o meu lado de "drama queen".
Para o expressar fui ao baú das mágoas, do desalento, da desilusão, da perda de esperança.
Espero um dia poder dançá-la novamente. Sem eu o esperar, tornou-se num dos momentos mais intensos que vivi em palco nestes anos de dança que já levo.

*
Quando me sinto só
Sabe-me a boca a fado
Lamento de quem chora
A sua triste mágoa
Rastejando no pó
Meu coração cansado
Lembra uma velha nora
Morrendo à sede de água.


Quando me sinto só - Mariza

Uma música poderosa só podia dar uma coreografia igualmente poderosa.
E que bem dançada foi pela gaiata de 18 anos :)
A provar que ali dentro não é só energia acumulada.
A 1ª vez que a vi em ensaio fiquei tão emocionada que a pikena levou um beijo bem repenicado pela emoção que em mim desencadeou.

*

A minha alma partiu-se como um vaso vazio
Caiu, partiu-se, caiu
O que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?

Alastra a escadaria atapetada de estrelas.
Ao fundo um caco brilha entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
E os deuses olham-no por não saber por que ficou ali.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.


Apontamento - Margarida Pinto

A coreografia de encerramento.
Quando esta música foi sugerida para dançar, foi amor à primeira.
Uma letra e melodias contagiantes.
Sentia como uma coreografia dedicada à alegria, à felicidade estampada no rosto porque a vida tem muito de belo para dar.
Para mim, significou também uma ode ao nosso trabalho de meses.
Não podíamos ter terminado da melhor maneira, abraçadas em círculo, a rir às gargalhadas :)

**
 
Dizem que quando nos emocionamos, sentimos. Estranha associação, no entanto.
Emocionamo-nos quando rimos durante uma comédia, quando coramos de vergonha, quando choramos de dor ou quando o ritmo cardíaco acelera na presença de alguém que nos atrai. As emoções nascem de forma selvagem, incontrolável e efémera, passageira. E mais: são públicas, é possível ver os seus efeitos.
Mas, como chamar ao que, algures no recato do nosso interior, encontra as emoções e constrói a manta do ser que vamos sendo?
Chamemos-lhe sentimentos. O sentimento é construído. Regista e decifra cada emoção que passa. O sentimento permanece, persiste. Pertence à esfera do privado. O sentimento só se vê reconhecido por quem o cria.
 
(Paula Mata)

 


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A árvore

Hoje ao passar numa árvore apeteceu-me sentar debaixo dela.
Encostada ao tronco, rodeada de sombra e cheirinho a relva fiquei ali, assim...
Não pensava em nada. Só contemplava e ouvia... um passarito lá ao longe,.. as pessoas mais perto...
Peguei no livro e li um pouco.
Depois, levantei-me, passei a mão pelo tronco como num "até logo" e fui trabalhar.

Checklist

  • Roupa dividida
  • Acessórios escolhidos
  • Penteados e maquilhagens decididos
  • Nervosismo
  • Texto decorado
  • Entradas e saídas de palco estudadas
  • Responsabilidade
  • Receios
  • Bilhetes reservados
  • Últimos acertos de lugares em palco
  • Ouvir sem conta as músicas
  • Relembrar mentalmente coreografias
  • Focar nas nuances de cada dança 
  • Alegria em dançar
  • Boa disposição
  • Publicitar o espectáculo
  • Respirar fundo
  • Confiança 
  • Últimos acertos nos tempos
  • Dicas para disfarçar possíveis falhas em palco
  • Sentir o palco
  • Olhar para plateia e imaginá-la cheia
  • Desfrutar cada momento da preparação do espectáculo
  • Tentar descontrair
  • E dançar, dançar, dançar... feliz por poder fazê-lo e mostrá-lo ao mundo

        
        

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Vulnerabilidade, vergonha e arena

Estar atenta ao que me rodeia, aos sinais que vão surgindo, coisas aleatórias ou nem tanto assim...
É a velha história de procurar respostas algures, em alguém... e que estão sempre em nós, ainda que tantas vezes veiculadas por outros...
Nos dois vídeos abaixo que vos deixo, e que espero que tenham a paciência para os ver porque são maravilhosos, ficaram-me 3 palavras: vulnerabilidade, vergonha e arena.
Vieram até mim através de duas pessoas: uma não a conheço pessoalmente, mas a sua escrita conquista-me e pacifica-me quase diariamente; a outra conheço-a há anos... e não a vejo há anos..., mas o virtual aproximou-nos.
E desta forma, sem que nada o previsse, assisto à abordagem de dois sentimentos que tantas vezes me ensombram e assombram. Por estes dias, mais vívidos e sofridos, por causa de um espectáculo em que entro e que me traz tanto de contentamento como de medo, de vontade de o sentir nas entranhas como o receio de falhar nessa intenção.
E estes vídeos foram aquela mão forte que te agarra quando quase tropeças. Uma dádiva em dia de reflexão. Uma ajuda, uma resposta, uma força. Não há mal algum em ser vulnerável, ter vergonha. Mal maior é não aproveitar isso para passos maiores e arriscados.
Na arena é que se combate, não fora dela.

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sem-abrigo

- Lá em baixo, à entrada do prédio, está um sem-abrigo, dizia o senhor no estabelecimento comercial.
- É o mesmo de ontem, não é? - perguntou a dona. Ainda ontem o vi, até me dói ver o coitado.
- Alguém pôs uma floreira no sítio onde o senhor se deita para ver se ele se vai embora, mas ele agora foi para o outro lado da porta. Qualquer dia põem lá uma floreira também.
Quando desci o elevador esperava encontrar o sem-abrigo. Estava já deitado, a dormir. Eram 20hrs.
- Senhor...
O senhor abriu os olhos a custo, um olhar doloroso, lamacento.
- Tome,... isto é para si.
Ele olhava-me como se não acreditasse que eu me estivesse a dirigir a ele, mas a sua mão abriu-se instantaneamente. Mesmo sem olhar para o que lhe dava.
Quando sentiu o que era, fechou a mão e expirou "oh menina..."
Vim-me embora, parecia que tinha o meu pescoço agrilhoado.
Ser sem-abrigo deve ser como ser-se expropriado da sua própria pessoa.
Ser sem-abrigo num país estrangeiro deve ser como não ter sítio na vida...

domingo, 29 de setembro de 2013

Urnas carregadas de Esperança

As primeiras eleições em que votei, acabadinha de fazer 18 anos, foi para a Presidência da República.
Lembro-me que mal pude começar a tratar do cartão de eleitor, fi-lo. Para mim, este cartão era de grande importância, logo a seguir ao BI e cartão de contribuinte. Ainda hoje penso assim.
Eu queria mesmo votar,  estava ansiosa pelo dia, pela 1ª vez achava que estava a contribuir com algo para o país.
De lá para cá só falhei uma vez o meu dever de voto porque estava ausente do país. Não foi premeditado, mas senti-me em falta. Actualmente, dia de eleições não é para estar ausente, organizo a minha vida nesse sentido. E se tiver de me ausentar... as urnas abrem às 8hrs. Em 5 minutos o meu dever está cumprido.
De lá para cá desiludi-me com a política, mas gosto de uma boa tertúlia sobre a mesma. Mais do que a opinião dos políticos da praça, gosto de ouvir a opinião das pessoas e "entendidos".
De lá para cá descobri que sou apartidária, que acredito em pessoas e projectos.
De lá para cá descobri que não há pessoas e projectos perfeitos.
De lá para cá descobri que muito boas intenções são barradas e nunca saem do papel.
De lá para cá descobri que o melhor dos projectos nunca reúne consenso.
De lá para cá descobri que o pior dos projectos agrada sempre a alguém.
De lá para cá descobri que abomino obra feita à custa do endividamento brutal, do engano e ilusão dos que trabalham e não vêm pagamento tão cedo. É um dos mais importantes parâmetros para definir o meu voto. Hoje, mais uma vez, vai defini-lo.
Mas voto.
Porque é um dever cívico. É o meu país, por muito desiludida e descontente que possa estar.
É a minha maneira de dizer que tenho esperança em dias melhores, que acredito e confio naquelas pessoas que são mais corajosas que eu, que vão além do voto e agem, espero, em prol dos outros.
Sei de trabalho muito bem feito, muitas horas dadas aos outros, a pensar num bem maior e geral.
Por isso não aceito razões para não votar.
Como se já não houvesse mais nada a ganhar e tudo a perder.
Porque a obra feita não nos atinge directamente, mas outros.
Porque há corrupção. Como se não votando a estivéssemos a impedir.
O desapontamento não pode ser um motivo. Se nos abstivéssemos em todas as nossas desilusões, o nosso mundo não melhorava. Se não gostamos e aceitamos isso na nossa vida...
Para o bem e para o mal somos um povo. Pensar e agir no geral é pensar e agir  em particular.
Os outros somos nós.
Já votei :)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Saltos sem chão

A natureza fez-me reservada, tímida e ... discreta. O que a maior parte das vezes é uma chatice.
O esforço em provar o que quer que seja é sempre redobrado, os receios são múltiplos, o deixar-me conhecer torna-se demorado, o que também me priva de conhecer mais fácil e naturalmente outras pessoas. É só perdas.
Não foi surpresa para mim quando a minha família se espantou pelo meu interesse no teatro, primeiro, na dança, depois.
Antes não me surpreendeu o meu gosto pela arte de representar e de dançar. Era um mundo de sonhos. O que me surpreendeu foi a força em tentar tornar esse mundo um pouco mais real.
O teatro ocupou-me pouco tempo, mas foram meses mágicos de provas dadas e medos ultrapassados. O pouco tempo dedicado idealizou este amor. Hoje satisfaço o meu bichinho vendo teatro, respirando os teatros que visito, suspirando nos teatros onde me sento.
Mudança de vida encaminhou-me para outro amor, a dança. Este mais longo, como tal mais vivido e  sofrido. Não é fácil uma tímida expor-se em palco. A vontade de bem expressar algo colide com a discrição da personalidade e o receio, sempre lá, de falhar.
Deste caminho dançado já longo valorizo a satisfação libertadora dos movimentos, a pessoa mais fluída em que me tornei, as amizades criadas, as aventuras em palco e fora dele.
Todos os anos eu piso os palcos, o nervoso miudinho da responsabilidade acompanha-me sempre, mas tudo é vivido de uma forma leve, descomprometida.
Por estes dias vivo a experiência intensa da preparação de um espectáculo. E desta vez não é leve nem descomprometido. É a vontade férrea de proporcionar um bom momento de evasão.
É a vontade férrea de desempoeirar, de libertar medos entretanto sedimentados.
E é a vontade férrea de pisar um palco e dar largas à emoção. De dar um salto sem chão à vista.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Curas

Este fim-de-semana tive um encontro especial num elevador. Encontrei a Doutora Brinquedos que, entre um piso e outro, me deu uma consulta rápida. O tempo suficiente para me relembrar a cura de muitos achaques.

"L'amitié est le meilleur  des remèdes"

E assim, nesta língua aveludada dos "ours", "ents" e "itiés", a receita teve o condão de provocar um sorriso quentinho com umas lagrimazitas de comoção.
É que este remédio não me falta. Para dar e receber.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Se desejar fosse ser

O poema, a melodia, ... a dança ... que me inquietam por estes dias.



Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Missões secretas

Há coisas em que eu invisto e não sei explicar bem porquê.
Motivações pessoais, ideologias, caprichos.
O que seja, é por bem.
"Aquela mulher é uma trombuda! Uma pessoa diz bom dia e ela não nos olha nem responde."
Ouvia isto constantemente da empregada de limpeza no trabalho.
"É capaz de estar maldisposta"
"Então está maldisposta todos os dias. Deixei de lhe dirigir palavra."
E naquele momento, como se de uma missão secreta se tratasse, estruturei uma espécie de plano:
* Sempre que passasse pela senhora diria um audível bom dia
* Situação anterior aplicar-se-ía mesmo que senhora estivesse de costas e não me visse
* Sorriso nos olhos e na boca acompanharia sempre o bom dia
* Teria cuidado redobrado para não sujar o que a senhora estivesse a limpar e pediria desculpa se interrompesse seu trabalho
* Se a encontrasse a meio do dia, apressada ou não, sorrir-lhe-ía sempre
* Começaria por cumprimentos suaves. Bom dias muito alegres e expansivos podem ter o mesmo efeito que a má educação. Incomoda as pessoas.
* Aos poucos introduziria umas palavras extras ao bom dia, o estado do tempo é sempre uma excelente deixa.
* Se senhora estivesse na sua pausa de trabalho e a encontrasse noutro lado que não a sua zona de trabalho, cumprimentá-la-ia na mesma (ainda não consegui perceber porque é que determinadas pessoas que se encontram regularmente num local não se cumprimentam em sítios diferentes)

A senhora não era fácil. Muito reservada, acabrunhada, de muito poucas falas, sempre descontente com tudo e todos. Mas eu estava decidida: um dia o cumprimento seria uma coisa perfeitamente natural e simpática entre nós.
"Bom dia" foi respondendo ela. Começou preguiçosa, desconfiadamente.
Se eu não tomasse a iniciativa, ignorava-me.
Ai é?!?! Então toma lá um bom dia bem sonoro e repenicado, reclamando a sua atenção na minha presença.
Sou sempre eu que tomo a iniciativa porque sou eu que chego mais tarde e sei que se a senhora pudesse de vez em quando lá se esquivava.
E os bons dias foram-se tornando naturais, já não lhe são tão custosos.
Por isso, hoje, quando a senhora me dirigiu um sorriso bem aberto, ainda eu não lhe tinha dito bom dia, fiquei meio desamparada. E logo de seguida fiquei felicíssima. Boa, Sandra! Missão cumprida!

domingo, 15 de setembro de 2013

Quando as palavras dos outros se tornam nossas

Ça ne prévient pas quand ça arrive
Ça vient de loin
Ça c'est promené de rive en rive
La gueule en coin
Et puis un matin, au réveil
C'est presque rien
Mais c'est là, ça vous ensommeille
Au creux des reins

Le mal de vivre
Le mal de vivre
Qu'il faut bien vivre
Vaille que vivre

On peut le mettre en bandoulière
Ou comme un bijou à la main
Comme une fleur en boutonnière
Ou juste à la pointe du sein
C'est pas forcément la misère
C'est pas Valmy, c'est pas Verdun
Mais c'est des larmes aux paupières
Au jour qui meurt, au jour qui vient

Le mal de vivre
Le mal de vivre
Qu'il faut bien vivre
Vaille que vivre

Qu'on soit de Rome ou d'Amérique
Qu'on soit de Londres ou de Pékin
Qu'on soit d'Egypte ou bien d'Afrique
Ou de la porte Saint-Martin
On fait tous la même prière
On fait tous le même chemin
Qu'il est long lorsqu'il faut le faire
Avec son mal au creux des reins

Ils ont beau vouloir nous comprendre
Ceux qui nous viennent les mains nues
Nous ne voulons plus les entendre
On ne peut pas, on n'en peut plus
Et tous seuls dans le silence
D'une nuit qui n'en finit plus
Voilà que soudain on y pense
A ceux qui n'en sont pas revenus

Du mal de vivre
Leur mal de vivre
Qu'ils devaient vivre
Vaille que vivre

Et sans prévenir, ça arrive
Ça vient de loin
Ça c'est promené de rive en rive
Le rire en coin
Et puis un matin, au réveil
C'est presque rien
Mais c'est là, ça vous émerveille
Au creux des reins

La joie de vivre
La joie de vivre
Oh, viens la vivre
Ta joie de vivre
 


 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Subtextos

Lembro-me muito pouco do meu 1º dia de escola.
Na memória só ficou registada a viagem casa - escola, no táxi do pai, em pé no banco de trás e de mochila às costas. Recordo-me do frenesim que me deixava irrequieta.
Primária... Ciclo... Liceu... Universidade...
Complexo de inferioridade... a consciência de que tinha sido dotada de neurónios que funcionavam bem se eu o quisesse... o aprofundar de amizades... o grito de liberdade...
Comum a todos eles: o passar à primeira cada ano, o empenho, a vontade de ser boa aluna, de ser um orgulho para os pais, a colega porreira, a discrição no comportamento.
Da escola, o que mais me marcou não foram as matérias dadas. O devido valor a muitas só foi reconhecido já em fase adulta. O que mais me marcou foi todo um mundo paralelo à aprendizagem: a vontade do conhecimento, de estar atenta e aberta ao mundo, a capacidade adquirida de algum discernimento, as amizades criadas e mantidas ao longo dos anos, os bons momentos daí gerados.
Os maus momentos ajudaram a temperar e a saborear os bons.
O tempo da universidade foi o meu preferido. Estudar numa cidade fora foi... o grito de liberdade... e um conhecimento aprofundado da minha pessoa, o rasgar de amarras a todos os níveis, a descoberta de forças interiores que eu desconhecia.

O pequeninotes da família, no dia 16 de Setembro começa o 1º dia de uma labuta de pelo menos 12 anos.
Que aprenda o a,e,i,o,u do companheirismo, da rectidão, do valor do trabalho; que aprenda a multiplicar e a dividir vitórias, a subtrair o supérfluo e as derrotas, a somar amizades e amores.
E que se divirta... muito... que faça noitadas, directas, que apanhe muitas borracheiras e que cante Quim Barreiros à desgarrada.
Que viva!
Benvindo à escola, Afonso!



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Zonas de (des)conforto

"Sandra, imagine que vai trabalhar para longe e terá de dizer ao seu namorado que se irá separar dele. Sabe que é uma situação com a qual ele não concordará. Convença-o de que será o melhor para a vossa relação. Improvise."

Assim começou um dos momentos que se viria a revelar antológico na minha vida.
A nossa vida é repleta destes momentos, que seriam iguais a tantos outros, mas que afinal marcam a diferença, o pulo, a coragem, o desconforto. Pouca coisa válida acontece na nossa zona de conforto.
Até na dança todo o movimento é muito mais bonito quando saindo dessa zona. Ir sempre mais além.

Isto a propósito de desafios que nos lançam ou que lançamos a nós próprios. E que nos fazem balançar: conseguirei?; serei capaz?; não me vou expor em demasia?;
E quando seguimos em frente, mesmo não conseguindo os resultados desejados, de uma maneira geral não nos arrependemos.
Assim foi quando:
* Optei pelo meu curso de turismo. Grande luta cá em casa.

* Enfrentei a minha imensa timidez e objecção familiar e resolvi fazer um pequeno curso de formação teatral. Que grande vitória sobre mim foram aqueles meses, com uma boa classificação final e o melhor dos bónus: uma amizade para a vida.

* Preparava a cena da peça final do curso de teatro. Nem constava do guião e transformou-se numa das cenas mais apreciadas da peça.

* Decidi entrar em dança. Tantas Sandras foram surgindo. Tantas amizades nasceram.

* Quando mudei de emprego e regressei a Aveiro.

* Me apaixonei e me deixei ir (tão aventureiramente em alguns casos), sempre acreditando no Amor.

Dentro de pouco tempo estarei de novo em palco. E ainda que todos os anos conviva com ele,  desta vez sinto-o como o meu próximo grande desafio. E deste desafio outros surgiram. Obriga-me a ir às minhas entranhas. Não é uma imagem bonita, mas sinto-o assim. E tenho de dançá-lo assim.
Porque também surge de um voto de confiança.
E a confiança que depositam em nós é sempre um desafio tremendo.

sábado, 17 de agosto de 2013

Aventuras Escritas

Este blogue, ele próprio, é uma aventura.
Nem sei se sobreviverá.
Não será um relato de aventuras, de coisas e situações aventureiras, fora do comum.
É o próprio acto de escrever que será uma aventura... porque não tenho a certeza de nada, nem se o que escrevo valerá alguma coisa.
Apesar de todas estas dúvidas, espero que seja agradável à leitura.
Ninguém cria nada sem a expectativa da estima dos outros.