sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sismógrafo

Acho que não devia fazer electrocardiogramas eu, devia fazer escalas de Richter porque me parece que em lugar de coração tenho um sismógrafo cuja agulha assinala o menor estremeço interior ou exterior com uma amplitude imensa: basta-me viv......er para a agulha não parar e que cordilheiras de tinta os meus dias. Se me perguntam

- Como vais?

só tenho a mostrar riscos enormes, capazes de fazerem cair todos os prédios da cidade e espanta-me que Lisboa permaneça intacta e o chão nem oscile.

António Lobo Antunes, in "Quinto livro de crónicas".
 
 
 
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sensores

Há dias que apetece dar, mas receber de volta.
Desculpem-me o pouco católico da coisa, mas como ouvi alguém "entendido" dizer por estes dias nós gostamos que nos tratem bem.
A química do amor explica isso fascinantemente.
Fico-me pelo sensitivo, sabe-me lindamente ser acarinhada.
Como diz o ditado popular "quem não sente não é filho de boa gente". E eu sou filha de boa gente.
Por isso, quando recebo uma prova de carinho inesperada que me faz concluir que não sou somente mais um ser  à face da terra , activam-se  os meus sensores da felicidade. Diz mais uma vez o entendido. Eu só sinto.
É que isto de acarinhar, amar, dar, animar, fazer sorrir, ouvir, estar atenta, apoiar, compreender, aceitar, ... funciona melhor ... reciprocamente.
Talvez por isso quando sou bafejada por ditos como "os meninos falam frequentemente de ti" eu esparralho-me toda e demora um pouco a apanhar os pedaços. Aqueles pedaços que perfazem um todo e que tantas vezes parecem desconexos.
Bem sei que nós mulheres funcionamos muito "olha para o que eu não digo" e que por vezes somos difíceis de descortinar.
Só se pede um pouco de atenção e... carinho.
 

 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sabe-me a boca a fado

"Quando me sinto só sabe-me a boca a fado."
 
 
Hoje ouvi isto e alojou-se.
Não estava só e fiquei.
 
E embalei assim pela noite, em ilha lá longe.
 
 


terça-feira, 29 de outubro de 2013

A viagem de comboio inusitada. Isto não é ficção.

(Para memória futura)

(D - desconhecido; S - Sandra)

A caminho de Lisboa, aos 23 de Junho de 2013:

D - A menina é de Aveiro?
S - Sou.
D- Eu sou do Porto. O bilheteiro ainda não passou aqui. Está ali na lengalenga. Podia ter vindo à pato até aqui.
S - ...
D - Engajou ali com uma moça nova e não a larga. A mulher em casa, ele a meter conversa... Está a compreender a situação? É um pássaro vivido.
S - ...
D - Vai para onde?
S - Lisboa
D - Eu vou para Pombal. Vai a uma festa?
S - Vou ter com amigos.
D - (sorri manhosamente) Vai é ter com o namorado...
S - ...
D - Quanto paga de bilhete?
S - Eur 18.00
D - Se o seu namorado a viesse buscar ficava mais bem servida. Tomavam o pequeno almoço, íam até à Mealhada comer um leitãozinho e depois íam para Cascais (que aquela água não vale nada, é cá um frio acima, aquilo é só rochas!!)
S - ...
D- Gosta de leitão?
S - Gosto...
D- E de borrego? Um bom borrego assado?
S - Gosto...
D - E de vinho? Branco?
S - Gosto...
D - No Fundão comi naqueles restaurantes de rua um borrego, era cá uma pratada de carne só com um bocadinho da batatas. Nem lhes toquei tanta era a carne. Uma coisa que nós os motoristas (eu sou motorista, sabe?) nos orgulhamos é de saber onde comer bem, de conhecer as estradas todas e perceber de mulheres. Ahahah, não me leve a mal...
S - ...
D - O bilheteiro continua na conversa. Já deve ter o nr. dela. Se eu não estivesse aqui, ele punha-se na converseta com você!
D- Tem filhos?
S - Não...
D -  Porquê?!?! Não quer?!?!?!
S - Quero.
D - Você é nova, não é?
S - Sou.
D - Que idade tem?
S - Que idade me dá?
D - 27
S - Acertou em cheio, tem bom olho...
D - Que idade me dá?
S - 33 (ele percebeu 23)
D - (ri-se) 23 tenho eu de camionista e 17 de carteira profissional. Já conheço o mundo todo! Tenho 45 anos.
D - Pode aproveitar e ter filhos com este namorado. Quer ter um filho ou filha? Sabe como fazer um filho ou filha? Sabe que é o homem que decide?
S - Sei. Vocês decidem e nós carregamos...
D - Quer saber como se faz? Mas isto é segredo, eu sei a verdade. Não pode andar aí a contar a toda a gente...
(ups)
S - Então, como se faz uma filha?
D - Quer mesmo saber?
(Ajeita-se na cadeira e por momentos acho que vai simular o acto)
D - Se quer ter uma filha, o homem tem de ser ano ímpar!
S - ??? Como assim?
D - O homem tem de ter 23, 25, 33, 'tá aperceber? Se for filho é ao contrário. Acredite no que lhe digo, é mesmo assim. Mas não ande por aí a dizer...
D - Está a ver os homossexuais?
S - Sim?!... (baralhada)
D - É por isto. Se uma filha nascer no ano par do pai vai ter hormonas masculinas e se um filho nascer no ano ímpar do pai vai ter hormonas femininas.
D- Olhe, o bilheteiro já aí vem. Paguei Eur 14,70 para nada. Lá vem ele todo sorridente, com a sua barriguinha. Típico português...
(Ouve-se um barulho estranho nos carris)
D - Rebentou um pneu, o cabrão!  Ahahahah
D - Conhece o Sida? Já ouviu falar?
S - Sim...
D - Donde vem o Sida? Sabe o que é?
S - É um vírus...
D - Não!! É um gene!! Está a ver Atlanta, nos EUA? Foram uns cientistas que o criaram. Ainda o seu pai era jovem e já se sabia que havia muita gente na terra e que não ía haver comida para todos. Era preciso matar pessoas.
D - Sabe quem são as pessoas mais valiosas no mundo neste momento?
S - Não...
D - É um casal de portugueses!!! Descobriram a cura do Sida e de outras doenças, mas agora estão escondidos. Levaram-nos para umas instalações. Descobriram a célula de Deus.
 (Ía-me engasgando)
D - Eles descobriram um gene, que uma pessoa pode ficar viva 100, 200, 300, 400 anos e mais. Ter filhos e fazer uma vida normal. ´Tá a perceber?
S - Sim...
D - Eu 'tou a falar isto tudo que é para você não ir calada, a olhar só para a janela. Assim vamos falando. Mas isto tudo que lhe digo é verdade.
S - ...
D - Desculpe que lhe diga, mas é bonita. Tem uns olhos bonitos.
S - Obrigada.
D - Gosta de comer?
S - Gosto.
D - Já almoçou?
S - Sim, já.
D - Ahhh, já está almoçada!! Um bifinho?
S - Sim
D - Uma batatinha frita?
S - Sim
D - Um ovo a cavalo?
S - Sim
(Almocei uma salada)
D - Sabe uma salada boa para os seus olhos? Um pote de iogurte, uma courgette ou pepino, uma cebola, um alho. Tudo muito migadinho, 'tá a ver? E mistura no iogurte e depois põe por cima da salada. Eu já percorri mundo, já comi de tudo. O comer faz bem ao espírito. Assim, anda sempre com um sorriso e não precisa dos outros. Qual é o seu sonho? Agora?
(Apanha-me desprevenida)
S - Tantos, não sei :)
D - Sabe qual é o meu? Trabalhar seis meses e nos outros seis pegar nos meus filhos e passear num veleiro. Já andei a ver preços e já se compra um veleiro por dez mil euros. Eu tenho a carta de mar. Sabe quanto se paga por ter um barco atracado? Uns setenta euros. Foi a menina que escolheu este lugar?
S - Fui.
D - Como é que escolheu?
S - De facto só escolhi que queria frente e janela. O lugar definiu a CP.
D - E como é que sabe que é aqui o seu lugar? Que é aqui que deve vir sentada?
S - O bilhete tem o nr da carruagem e o nr de lugar...
D - E como sabe que é esta a sua carruagem?
S - Vi o nr da carruagem antes de entrar...
D - Aahhh, um número.... Eu entrei numa porta ao calha. Eu mostro o bilhete ao contrário. Se o bilheteiro reclamar pergunto-lhe o que é que ele tem a haver com isso.
(Mostra-me o bilhete, aquela não era a sua carruagem)
D - Então não tem filhos?
S - Não...
D - Eu tenho 4.  3 rapazes da mesma mãe e uma rapariga de 17 anos.
(Façam as contas...)
D - (sacando de uma foto) Este é o meu mais novo, tem 4 anos. O sacana só gosta de playstation.
Os filhos é o melhor que nós temos...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

♣ Confiança

Há palavras pelas quais tenho especial carinho, seja pelo seu significado seja pela sua sonoridade.
Coisas minhas... (Dou por mim muitas vezes a prestar atenção à sonoridade do meu nome, soletrando mentalmente as duas sílabas que o compõem.)
Uma das minhas palavras de eleição é confiança. Há um tom aveludado na mesma que me faz lembrar colo e proteção.
E depois considero-a uma qualidade fundamental numa pessoa, daquelas que define o tipo de relação com outros.
Podemos ter muitos amigos, mas confiamos em todos?
Quanto a confiança ajuda a definir os das nossas relações entre "conhecidos" e amigos"?
Por quantos amigos teremos mais amor e carinho que familiares devido à confiança que nos despertam?
Desperto confiança? 
É uma das batalhas da minha vida. Por isso, quando sinto que confiam em mim, toda eu enterneço e penso que talvez - afinal -, esteja a traçar um bom caminho.
Por estes tempos tenho sido presenteada com colos destes:

 ♣ Quando uma amiga cobra as minhas ausências e confidencia "o meu filho está farto de perguntar quando vais lá a casa."
 ♣ Quando uns bracinhos pequenos se tornam imensos num abraço apertadinho, apertadinho e me chamam "tia xana"
♣  Quando a 300 km de distância me perguntam "Quando vens a Lisboa para nos conhecermos?"
♣  Quando (confiança maior) me apresentam num primeiro encontro o seu filho
 ♣ Quando, sem me conhecer de lado nenhum até há instantes, aceitam a minha mão para atravessar a rua
♣  Quando os clientes me dizem que confiam em mim
♣  Quando me convidam para dançar em algum sítio
♣  Quando me falam dos seus piores receios
♣  Quando me falam das suas falhas
♣  Quando me contam um segredo
♣  Quando me abrem as portas de suas casas

Obrigada, das profundezas do coração.

Sabedoria  Retalho ♣ Aventura ♣  Colo ♣ Balancé Inocência Embalo Cinema Lisboa ♣ Água.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Magias


Hoje acordei como o dia, cinzento e choroso.
De regresso do almoço, nos meus pensamentos lá longe, sou chamada à terra por um toque no ombro.
“Hum” e mostra-me uma petição para assinar. Era para uma construção de uma casa de acolhimento de surdos-mudos.
Com um pé na terra e outro sei lá onde, neguei, continuando caminho.
A rapariga volta a tocar-me “hum” e insiste para eu assinar.
Não é preciso muito comigo. Começo a preencher.
Ela interrompe “hum”, passa a mão pelo rosto dela e desenha um beijo para mim.
Eu olho para ela e continuo.
“Hum” interrompe novamente. Olho-a. Então passa a mão pelo rosto dela, tipo mágica faz nascer um sorriso, e desenha novamente um beijo para mim.
Conseguiu o meu sorriso…