quinta-feira, 5 de junho de 2014

Emaranhados

Há dias que o emaranhado é de tal ordem, que o desalento ainda é maior, que a alegria parece uma miragem, que a solução não parece existir, que só apetece mesmo é desaparecer.
Como se resolve, mas como é que se resolve?...





terça-feira, 3 de junho de 2014

Mundos próximos

Fisicamente, sou só mais uma pessoa de um lado para o outro. O que as pessoas vêem é outra pessoa a dirigir-se a algo, a vir de algo, parada em algo, a dizer algo.
Há todo um outro mundo interior, invisível ao mundo físico, onde acontece a verdadeira acção.
Num dia de folga, onde é suposto descansar mente e corpo, há uma espécie de convulsão que irrompe pelo mundo interior adentro. Outros mundos interiores apoderaram-se do meu e não lhes consigo ficar indiferente.

Logo de manhã, começou pelo desabafo emocionado da mãe a contar que uma rapariga, mãe solteira, andava a fazer vendas porta a porta.
"Não me trate mal por favor, preciso de vender porque sou mãe solteira a sustentar sozinha a minha filha de dois anos"
"Oh Sandra, eu sei das histórias todas de trafulhice que para aí andam, mas e se este não era o caso?" - pergunta a minha mãe já de lágrimas nos olhos.
"Penso sempre que poderia acontecer a vocês e gostaria que alguém ajudasse os meus filhos numa situação destas."
Uma rapariga que perdeu a mãe aos 9 anos, foi para uma instituição onde conheceu o companheiro e de quem engravidou. Saiu aos 18 anos e pouco depois foi abandonada com uma criança nos braços.
A história é comum e por isso muitas vezes a desconsideramos por isso mesmo. Como se o banal, o recorrente deixasse de ser verdade porque se ouvir falar tanto. Como se pudéssemos desvalorizar a gravidade de histórias destas por serem consideradas banais. Como se devêssemos subir as guardas porque são já vulgares situações destas.
A verdade é que as minhas guardas estão sempre em baixo. É doloroso, mas prefiro assim a tornar-me cada vez menos sensível à dor do outro. Que mundo é este onde temos medo de ajudar? Onde se engana pessoas que estão dispostas a ajudar? Onde pessoas sofrem consequências gravíssimas por que foram almas boas?
No meu mundo não se ajuda toda a gente (feliz ou infelizmente), mas não é um mundo vendado ao sofrimento do outro. Não quero que seja.

**

Continuando a manhã, dirijo-me à loja do cidadão, e encontro um velhinho a pedir. 
Reparo nas suas mãos já deformadas pela idade e doença, porventura.
"Menina, por favor ajude-me, basta uma moedinha, é para comer, é para ajudar a comer."
Dou-lhe uma moeda e aqueles olhos (que ainda conseguem sorrir) sorriem com a esmola.
O senhor agarra a minha mão e dá um beijo nela "obrigada, menina, obrigada."
Tentei afastar-me para não me comover em demasia (porquê...?), mas não consegui virar-lhe as costas de imediato. Sorri-lhe, segui caminho e ainda ouvi "obrigada, menina, obrigada a todos!!". Só ali estava eu...
Quando saí passado 15 minutos, o senhor continuava lá, a pedir. Uma senhora, bem mais nova, ranhosa ao passar por ele "devia ter vergonha, com pensão e anda aqui a pedir, a roubar o que é nosso."
"Vê menina, os outros é que roubam e eu é que sou o ladrão por pedir. Obrigada, menina, obrigada."
Sorri-lhe, muda, e vim embora a pensar na vida triste que aquele homem deveria ter. 
Eu tinha estado ali, na tentativa de esclarecer os meus direitos, na tentativa de uma vida melhor e sabe-se lá onde chegarei e como.
Antes de entrar no carro parei o meu mundo e olhei uma última vez para o senhor. Ali estava ele, em pé, ombros curvados, quase a pedir desculpa por existir, a olhar encarecidamente para quem o evitava e fazia de conta que ele não estava ali.
O meu mundo não é mundo vendado, não pode ser, não posso deixar que seja.

**

Há uma canção de Rui Veloso que adoro: "As Regras da Sensatez".
Com uma letra e melodia belíssimas, mas que me lançam em contraditório. Umas estrofes aceito, outras não. O meu coração é mau aluno... e pouco sensato.





Não consigo...

Cada vez mais longínquo o regresso a um lugar onde fui a maior parte do tempo muito feliz, não consigo evitar uma visita de quando em vez. Para matar saudades e aumentá-las de seguida.
Porque eu tive o privilégio de, no local de trabalho, cimentar amizades, fazer outras, criar rotinas felizes.
Rotinas que uma pessoa, lá está, acaba por desvalorizar um pouco por isso mesmo, por serem coisas diárias, repetitivas. A velha história de que só se percebe o verdadeiro grau de felicidade de algo quando o perdemos.
Eu não perdi totalmente, as amizades mantêm-se, mas havia algo de reconfortante naqueles almoços a quatro vozes femininas em que se falava de tudo desde vida pessoal e profissional, chatices e desgostos até super heróis, livros, cinema e fadas Winx.
Hoje, ao reunir-me com as minhas compinchas da marmita, não consegui evitar o saudosismo das paredes da cozinha, do café da máquina, das portas que rangem ao abrir, dos universitários que parecem miúdos de liceu.
Estão a ver aquelas cenas de filmes com uma data de gente, em que se vê e ouve tudo desfocado e só uma das pessoas se destaca? É técnica baseada no real :)
Assim me senti eu (e peço desculpa às minhas amigas por ter deixado de as ouvir por instantes) quando só a sua simples presença me reclamou para um cantinho lá longe, só para sentir o quentinho do aconchego delas. Como se eu estivesse numa bolha de ar e elas as três noutra...
A memória destes tempos fica. A nossa amizade viverá em lugares diferentes, é esse o conforto.  
As coisas evoluem ou simplesmente mudam, quer queiramos ou não.
Salvem-se os laços...

**
Isto, num dia em que outros só me viram a andar, a conduzir, a comer, a tomar café, a esperar, a dançar...



domingo, 1 de junho de 2014

Action heros

Desde tenra idade que me acho incompatível com crianças.
O relógio biológico foi concordante comigo e nunca foi resmungão. Quando lá de vez em quando resmunga, digo-lhe com espanto "estou-te a estranhar", ele envergonha e aquieta-se novamente.
Claro que gosto muito de crianças. Penso que, por isso mesmo, afirmei desde sempre que não tencionava ser mãe. Acho que elas olham para mim e com a sua perspicácia boa e pura desvendam na hora a fraude que eu seria como educadora. Por razões que evito aprofundar em demasia sempre achei que não daria uma boa mãe. É preciso ter disponibilidade e paciência para estar com uma criança. Sempre achei que tenho estas qualidades em doses pequenas. Muito francamente sempre tive um medo terrível de não conseguir fazer feliz uma criança indefesa, de não lhe dar os alicerces seguros e fortes para uma vida adulta sempre tão complicada.
O relógio biológico (o tramado...), acusando já o cansaço de um corpo em idade avançada para um filho, aquietou-se, mas numa vingança velada e subtil, tornou-me cada vez mais enternecida perante a presença de uma criança. É através delas que vamos mantendo alguma frescura e cor de viver num mundo cada vez mais pintado de cinzento. É através do olhar delas que ainda conseguimos ver e acreditar na utopia de um mundo melhor. É através delas que acho que ainda me salvo como ser humano quando uma pequenita de 2 anos, de olhos sorridentes, vem ter comigo para me dar um abraço e encosta a sua cabecita no meu ombro; quando um pequeno chora porque me vou embora; quando o meu sobrinho de 7 anos me vê e sorri; quando uma criança que me acaba de conhecer me dá confiantemente a sua mão para eu o ajudar a atravessar a rua. É através delas que reacende a ternura adormecida em mim.

sábado, 24 de maio de 2014

Manhãs

Há qualquer coisa de bom nas manhãs.
Aquelas manhãs ainda bem madrugadoras, lavadas pela chuva ou cheias de luz.
Uma luz fresca, pura, arriscarei inocente,... até ingénua.
As manhãs têm um efeito regenerador.
Olha-se em volta e não há quase ninguém. E se outro alguém passar, comunga do que sentes e não te perturba.
Quase como se cada um de nós entendesse que aquele tempo é-nos preciso e precioso para ganhar forças para o dia incógnito.
A tranquilidade sobrepõe-se ao tumulto que possa existir, este sabe que ainda não é hora de emergir. Virá com o passar das  horas, com o barulho da tarde e o peso da noite.
Há qualquer coisa de bom nas manhãs.
Talvez seja a esperança a pedir-nos para acreditar num dia feliz.

terça-feira, 20 de maio de 2014

20/05/2010

Há pormenores que se cravam em nós, mesmo antes de lhes percebermos o sentido.
Assim aconteceu com aquela manhã de Maio. Estava quente..., estranhamente calma... e silenciosa...
Paz...
Não vi ninguém numa casa cheia de gente e saboreei aqueles momentos a sós. Mas algo indefinido pairava no ar.
Era um pressentimento... e a decisão de outrem, pensei mais tarde ao recapitular aquele dia.
Mal cheguei ao trabalho o telemóvel tocou. Assim que ouvi a minha mãe soube no momento o que ela me ía dizer: "Sandra..."
E pela 3ª vez na minha vida uma emoção descontrolada trespassou-me completamente, como se o meu corpo se tivesse separado de mim e reagisse sem a minha ordem.
Das três vezes foi por sentir a perda eminente.
E desde então, o corpo desobedeceu mais vezes, como se uma dor fantasma tivesse ficado a habitar nele sem querer saber do meu consentimento.
Recordo-me da força que tive de arranjar para voltar a uma casa onde não queria entrar; daquela viagem de carro, só eu, por minha conta e risco, uma solidão absoluta, de o conduzir em choro compulsivo; das mãos... de como tremiam as minhas mãos...; de olhar para quem passava por mim na sua própria vida - naquele momento com certeza mais ordeira que a minha - e gritar-lhes um pedido de socorro mudo e aflitivo "Ajudem-me, acabei de perder o meu pai!"
O encontro... o desviar do olhar de um corpo vivo até há tão pouco tempo... e querer desesperadamente recuar até duas horas antes, rotina sem chama, agora tão desejada.
E se eu o tivesse chamado...? E se eu tivesse ido à sua procura...?
O horror de pensar que em simultâneo às minhas rotinas matinais, no mesmo sítio, à mesma hora, outras se quebravam. A culpa...
Daquele dia fica o curto-circuito tétrico dos pensamentos: a solidão mata em vida; a celeridade das más notícias; a maledicência e a curiosidade mórbida tal qual abutres a rondarem as presas sangradas; o arranjar força na minha dor para confortar a dos meus; a dor vivida a sós; o ombro precioso dos amigos e a sua generosidade sem fim; a falta de palavras; a vontade de desaparecer; o vazio do tempo de espera; o ter de ter lucidez para tratar das questões práticas e frias de um óbito; o recordar das tentativas de despedida infrutíferas do pai, só naquele dia adivinhadas...
Ninguém santifica com a sua morte, mas os laços de sangue dos vivos deixados só lhes permite o choque do sofrimento.

A paz que eu senti naquela manhã não era a minha. Era a paz de uma escolha... e da coragem.









segunda-feira, 12 de maio de 2014

Maiorias

A propósito de o advogado Atticus Finch estar a defender um homem negro e ser acusado pela sociedade racista dos anos 30 um "amante de negros"...

- Atticus, deve estar errado...
- Então porquê?
- Bem, a maioria das pessoas parece pensar que tem razão e que o pai não...
- Têm todo o direito de pensar assim, e têm todo o direito a que se respeitem as suas opiniões - concordou Atticus -, mas antes de eu conseguir viver com outras pessoas tenho de viver comigo. A única coisa que não obedece a uma regra maioritária é a consciência de cada pessoa.
...
- Querida, nunca é insultuoso sermos chamados aquilo que outras pessoas consideram uma asneira. Isso só demonstra o quanto essas pessoas são pobres, não te magoa.


Não Matem a Cotovia, de Haper Lee

***

Movo-me em vários círculos e sei que a minha presença em alguns é só tolerada, suportada.
Não é fácil ser-se.
Ainda que com o seu grau de dificuldade inerente, é sempre mais fácil conviver com quem gosta de nós.
Não deixa de ser doloroso sentir que não somos apreciados. A mim custa-me de sobremaneira porque tenho o terrível defeito de querer agradar a toda a gente. Não gosto de saber quem não gosta de mim.
Hoje, contudo, tive uma surpresa agradável. Encontrei uma pessoa desses círculos e acenou-me com um sorriso. Não vai tudo mal por este reino, afinal...
Consigo ser implacável comigo mesma.
Não é fácil ser-se.

Já passei por situações de maledicência aguda e pessoas que me queriam bem achavam que eu devia retorquir. Não envolvendo terceiros queridos e sendo essa maledicência só dirigida a mim não tenho por hábito reagir, a não ser que sinta a minha dignidade profundamente ferida. A não ser que me faltem ao respeito descaradamente.
Os maledicentes não querem saber da verdade, só lhes interessa a intriga. São autênticos abutres. Desejarmos um esclarecimento da intriga só os rejubila. A verdade vem sempre à tona.
Pode vir é fora de horas... para os outros. Para nós esteve sempre presente.
E no final, é só mesmo isso que interessa. O acreditarmos em nós, nas nossas opiniões, nas nossas escolhas, mesmo que isso signifique "a diferença" para outras pessoas.
E se por vezes me custa o desagrado de outras pessoas - e só porque, de uma forma ou de outra, elas contêm significado para mim - (os que me são indiferentes nada me dizem), é o desagrado por mim mesma que me custa mais.
Não é fácil ser-se.
A minha consciência é maioritária e é-me bastante ditadora.
É com ela que tenho de aprender a saber viver.

***



sábado, 10 de maio de 2014

Inside job

"Mas não será a ideia de felicidade uma idiotice? Teremos mesmo necessidade dessa perspectiva irrealista? Limito-me a achar que viver instantes felizes já é uma sorte e uma glória. 
 o riso, um recurso maravilhoso."

Yasmina Reza
Jornal Expresso, 10/05/14

A propósito desta afirmação de Yasmina Reza, acho que é consensual que ninguém acredita na felicidade plena. Aliás, nem entendo o conceito de plenitude aplicado à felicidade para esta ser considerada como tal.
Acho lógico a felicidade ser pequenos instantes ou períodos mais alongados de alegria e satisfação. Com sorte podem ser muitos, espaçados, ou com ainda mais sorte, muitos e consecutivos. Em ambos os casos, plenamente vividos.
A grande questão é saber como lá chegar.
Lembro-me de em pequena achar que à medida que as pessoas crescessem e envelhecessem, as suas vidas tornar-se-íam sempre melhores. Hoje já não acredito,... mas desejo-o.
E dói cada vez que vejo pessoas que têm acompanhado o meu crescimento a envelhecer em condições cada vez mais tristes. Por doença ou por desgraça.
Há toda uma utopia que se esvai. E fico a pensar na vida, na minha vida. O que ando a fazer dela. O que ela me reserva.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar, mas não sabemos como o atingir.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar e fazê-mo-lo mal.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar e fazê-mo-lo mal a pensar que o fazemos bem.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar e desistimos antes de tentar.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar, mas o medo deixa-nos pelo caminho.
Algumas vezes sabemos onde queremos chegar e boicota-mo-nos.
Há pouco falei de sorte, mas não é só sorte, porque isso faria da felicidade algo somente aleatório e não o é.
Também é discernimento nosso, crença em nós e nos outros.
É esperança que os outros não nos vejam como meras distracções, que nos reconheçam algum valor e nos respeitem.
É desejar que quem venha, venha por bem e não nos sugue o que lhe falta para benefício próprio.
É conseguirmos avaliar o que não nos faz bem e afastar-mo-nos sem delongas.
É conseguirmos reconhecer o bom que nos aparece e não o toldarmos com as nossas dúvidas, as nossas desconfianças, as nossas mágoas, os nossos medos.
E é muita sorte quando alguém aposta em nós mesmo no meio de todos os seus quês e dos nossos quês... e o deixamos entrar, no meio de todos os nossos quês e dos seus quês.
A felicidade esgueira-se mais do que desejamos e cada vez mais acredito que é por pura incompetência nossa.

"Happiness is an inside job"