É uma memória vívida como se tivesse acontecido ontem.
Recordo-me de estar a aguardar pela minha vez no hall e ela entrar toda despachada, cheia de segurança e garra e dirigir-se à pessoa responsável para saber quando faria as provas.
Soube instantaneamente que ela seria escolhida para o curso de teatro. Vi a aura de talento cravadíssima nela só pelo seu simples estar. Não se explica o que se (pres)sente.
Também soube ali que nos tornaríamos amigas. Há verdades escancaradas que nos são dadas de mão beijada, mas cujas explicações para elas não temos de imediato.
Soube claramente que estava a viver um "turning point" na minha vida.
Nos 3 meses que convivemos diariamente (nunca se voltaria a repetir tal assiduidade) admirava-lhe o talento, a inteligência com que o usava. Num registo mais pessoal, a sua frontalidade e a sua doçura revestida de carcaça. Sabia que era daquelas mulheres que nunca reuniria consenso. Ou se gostava ou não.
Ela teve a coragem de seguir carreira. Eu não.
Mundos diferentes, terras diferentes separaram-nos fisicamente por alguns anos.
Ainda na era do papel, correspondia-mo-nos esporadicamente por carta, nas datas chave. Estivemos anos sem nos ver.
Foi com o nascimento do 1º filho que o contacto se começou a tornar mais regular. Quando vi a bebé nos braços dela estabeleci um paralelismo lamechas. Não fazia sentido tanto tempo afastadas quando tudo se alcançava tão rapidamente. A partir dessa altura comecei a visitá-la mais regularmente. As peças de teatro dela tornaram-se um bom motivo para os reencontros. E a amizade fortaleceu desde então.
E continuei a admirá-la cada vez mais. A sua garra na profissão, a luta por trabalhar honestamente, o batalhar pela Arte e não se vergar à fama fácil, os seus valores familiares, a educação e atenção dada aos filhos, a maneira como enfrenta as dificuldades e as desilusões, a sua enorme força interior.
Não estava errada naquele primeiro dia. Ali estava uma pessoa que me acompanharia para o resto da minha vida.
Passaram-se 22 anos desde aquele encontro no hall.
Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito
Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!
Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável
Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz
Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser consequente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!




