quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Carla

É uma memória vívida como se tivesse acontecido ontem.
Recordo-me de estar a aguardar pela minha vez no hall e ela entrar toda despachada, cheia de segurança e garra e dirigir-se à pessoa responsável para saber quando faria as provas.
Soube instantaneamente que ela seria escolhida para o curso de teatro. Vi a aura de talento cravadíssima nela só pelo seu simples estar. Não se explica o que se (pres)sente.
Também soube ali que nos tornaríamos amigas. Há verdades escancaradas que nos são dadas de mão beijada, mas cujas explicações para elas não temos de imediato.
Soube claramente que estava a viver um "turning point" na minha vida.
Nos 3 meses que convivemos diariamente (nunca se voltaria a repetir tal assiduidade) admirava-lhe o talento, a inteligência com que o usava. Num registo mais pessoal, a sua frontalidade e a sua doçura revestida de carcaça. Sabia que era daquelas mulheres que nunca reuniria consenso. Ou se gostava ou não.
Ela teve a coragem de seguir carreira. Eu não.
Mundos diferentes, terras diferentes separaram-nos fisicamente por alguns anos.
Ainda na era do papel, correspondia-mo-nos esporadicamente por carta, nas datas chave. Estivemos anos sem nos ver.
Foi com o nascimento do 1º filho que o contacto se começou a tornar mais regular. Quando vi a bebé nos braços dela estabeleci um paralelismo lamechas. Não fazia sentido tanto tempo afastadas quando tudo se alcançava tão rapidamente. A partir dessa altura comecei a visitá-la mais regularmente. As peças de teatro dela tornaram-se um bom motivo para os reencontros. E a amizade fortaleceu desde então.
E continuei a admirá-la cada vez mais. A sua garra na profissão, a luta por trabalhar honestamente, o batalhar pela Arte e não se vergar à fama fácil, os seus valores familiares, a educação e atenção dada aos filhos, a maneira como enfrenta as dificuldades e as desilusões, a sua enorme força interior.
Não estava errada naquele primeiro dia.  Ali estava uma pessoa que me acompanharia para o resto da minha vida.
Passaram-se 22 anos desde aquele encontro no hall.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Conto - II

Ela encontrava-se numa fase aparentemente calma da sua vida. Nem tudo lhe corria de feição, mas o bom que existia compensava algumas desventuras. Propusera-se a alguns desafios, estes tinham-lhe corrido bem. Sentia-se satisfeita, confiante até. Ainda que uma confiança nunca linear. Nunca lhe dava grande crédito porque esta ziguezagueava imenso. Tinha sempre muito cuidado no excesso de confiança e/ou felicidade. Na expressão de alguma efusividade. Tinha receio de as perder por isso. Habituara-se a uma confiança efémera, fátua. Nunca saberia se por conspiração do universo, se por problema mental.

Num dia como outro qualquer (assim achava), um gesto igual a tantos outros anteriores marcaria a diferença. A vida é assim, muito dos gestos que implicam diferença não vêm marcados com "very important moment for the future". Vêm mascarados de rotina.
A atenção lisongeou-a, mas procurou minorá-la ao máximo. A atenção surpreendeu-a, mas francamente nem se achava digna dela. Impôs-lhe o adjectivo "passageira" e procurou ignorá-la. Para reforçar o efémero da coisa deu-lhe um prazo "6 meses e será passado".
A vida é matreira.
Contra todas as suas expectativas a conversa foi-se tornando boa, o contacto regular espantou-a. A confiança e o à-vontade foram ganhando terreno. Mas o alarme mental nunca a abandonou. Simplesmente achava bom demais para ser verdade.
Etapas que ela achava decisivas e que levariam a um "the end" porque assim tinha sido sempre, para sua surpresa, insistiam numa continuidade. Algo corria mal porque as coisas corriam bem. Ou quase...
Pelo meio, bateu-se sempre por ser ela própria. Não faria sentido de outra maneira. Acreditava que valeria por si. E foi abrandando os seus receios.
Esqueceu-se que o dar a conhecer pode ter um volte-face perigoso.
Nada é etéreo, ligeiro por muito tempo, a não ser que seja insignificante.
Começou a sentir a necessidade de um trato mais cuidado. Uma maior atenção que ela desejava espontânea e que não a pedia por não se achar no direito de. O não se achar no direito de alertou-a para a sua condição de ser e estar. E os seus alarmes regressaram, em força. Repreendeu-se e refreou toda uma conduta que queria natural e que começava a não o ser. Lembrou-se do prazo que tinha mentalmente instituído. Estava na hora, porque não acontecia?

A vida é matreira.
Num dia como outro qualquer, sem o esperar (ironia da vida), o silêncio impôs-se.
A vida é assim, muitas das palavras que nos saem não vêm marcadas com "danger". Vêm mascaradas de confiança, crença, à-vontade. E criam buracos de conversa.
Não sabia se ela tinha sido a razão ou outra coisa qualquer. Simplesmente, a partir desse dia, sentiu-se... insuficiente.
Recriminou-se pelo excesso de confiança em si. Já devia ter aprendido as partidas que lhe pregava.
De volta aos mínimos necessários de existência, deixar-se-ía ficar. Nunca tinha tido jeito para se fazer valer, para lutar por si, para competir. Os outros tinham sempre mais qualidades que ela, eram sempre mais interessantes. De que adiantava a luta? Para realçar as desigualdades?

Dizem que o que emanamos para o universo, ele dá-nos de volta.
Ela lamentava profundamente que as suas dúvidas, medos, desesperanças emanassem sempre mais forte que o Amor que tanto tinha para dar.




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Linhas mestras


Não sei se serão só estas as coisas que importarão no fim. Tenho alguma dificuldade em resumir a vida por tudo aquilo que ela comporta. É, no entanto, muito importante a existência de linhas mestras. As de génese, as que criamos e desenvolvemos, as que defendemos, as que não gostamos. Estas últimas muito importantes porque saber o que não se quer pode ser uma valiosa orientação quando não sabemos bem o que queremos.

A linha mestra do Amor é incontornável. É pilar, coluna vertebral, entranhas, poro. Até quem opta pela solidão permite-se quebrar o seu rosário de vez em quando. Sofre por desamor algures, mesmo que a espaços. Ninguém consegue evitar uma felicidade imensa quando ama e é retribuído, mais do que o sorriso estampado na cara, é a força anímica que ganhamos.

O desapego é que é um osso muito duro de roer. Quando se gosta é muito difícil deixar ir, principalmente de forma graciosa. Qual o método indolor para se deixar de gostar de alguém rapidamente quando todo o nosso ser se conjugava com o outro? É muito complicado digerir a perda de estatuto especial ou aperceber-mo-nos que na realidade nunca o fomos. Isto ainda pior. Enfrentar o (nosso) engano, desmontar utopias, "teses líricas" juntamente com a decência e coragem de atitude de achar que cada um tem um direito de seguir com a sua vida, mesmo que isso não nos inclua e soframos horrores por isso. Mas esta atitude é imprescindível. Não há pior engodo que lutar por uma pessoa que não nos quer. Nunca dará o devido valor ao nosso sentimento e nós não nos estaremos a respeitar a nós próprios.

A ternura e cuidado no trato para com o outro é um lema. Nem sempre fácil de atingir, mas vale bem o esforço mesmo que rodeados de tubarões. E acredito que esta será a grande linha mestra que distinguirá a nossa vida em vida e morte, mais que o Amor. Viverá a meias com a sensação de desilusão, desalento, injustiça e deseja-se que nunca vencida por estas.
A estas palavras acrescento as linhas mestras da honestidade, da sinceridade, da integridade. Fala-se tanto, escreve-se tanto, diz-se tanto, aponta-se o dedo tanto. E se não revelarmos um pingo de consciência e humanidade nos nossos actos seremos uma fraude. E as consequências, não as sofreremos só nós.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Manifesto

Há dias em que parece que o mundo nos cai em cima. Seja porque se conjuga toda uma série de coincidências a complicar o que deveria ser simples, seja pelo acumular de tensões que não desaparecem com uma boa noite de sono ou um bom dia de sol.
Há dias que poderiam saltar do calendário.
I want my silly season... Até parece que isso este ano desapareceu. Quero aquela estação em que o fútil permite uma ligeira pausa da seriedade do restante ano, que o sol permite relaxar o corpo e dar azo à preguiça boa e despreocupada.
Há dias em que me canso do mundo. Entendo-o cada vez menos. Desilude-me cada vez mais.
I want my silly season to escape.
Não quero pensar no banco que está a pôr em causa o meu posto de trabalho.
Não quero pensar como tinha um trabalho tão interessante e que adorava e que de um momento para o outro mo foi retirado.
Não quero pensar na estupidez das pessoas e na minha imensa dificuldade em lidar com ela.
Não quero pensar nas minhas amigas que partem para os estrangeiro porque cá não vêm aproveitadas as suas capacidades de trabalho e que lá fora são reconhecidas.
Não quero chorar de desmotivação e exaustão a caminho de casa.
Não quero a solidão do fim de tarde.
Não quero adeus, muito menos dos fáceis. Se tiver que haver adeus que haja a dificuldade de uma despedida.
Não quero teias. Estou cansada das minhas teias.
Quero o aconchego de uma boa conversa.
Quero o meu humor de volta.
Quero acreditar que tudo tem sempre uma solução.
Quero acreditar que é sempre possível suplantar dificuldades de expressão.
Quero acreditar que nada é em vão.
Quero aqueles dias em que uma pessoa acorda a sorrir e faz sorrir.




sábado, 2 de agosto de 2014

Fogo autónomo

"Quando ele a serve, os olhos fixam-se nos olhos e algo muda, e o braço já não treme. É um instante grave, um desses instantes com o qual um dia se inventará um começo.
...
Não basta sair das mulheres para saber delas, nem mesmo entrar-lhes no corpo. Pode um homem entrar numa mulher sem nunca chegar a conhecê-la, para isso é preciso muito tempo e um desejo que não se apague com o dia.
Cada mulher é uma soma de parcelas sem conta, uma por cada homem passado, por cada homem querido, por cada dor, por cada filho. Há partes que dormem até que um toque as estremeça, outras que ardem num fogo autónomo, sem que nada o alimente.
Há mulheres tabuleiro, jogos de combinações infinitas onde nenhuma estratégia garante a vitória. Jogos de toda a vida, até que alguém se renda ou a luz se apague."

"No meu peito não cabem pássaros", de Nuno Camarneiro

quinta-feira, 24 de julho de 2014

É estranho, mas não impossível

Num mundo em que se dá imenso destaque aos horrores à nossa volta, estar bem, ser feliz torna-se estranho. Para os de mal com a vida é quase uma ofensa o bem-estar dos outros.
A crise é uma óptima desculpa para a mesquinhez e terreno pródigo para a inveja, intriga, maledicência e usurpação de direitos. Repara-se na quantidade de pessoas a fazer férias, a ir a festivais de Verão, a aproveitar um fim-de-semana fora, a jantar em restaurantes, a aproveitar o sol de uma esplanada, na roupa marca x que aquele/a traz vestida (juntando os galões de como se é poupado e mostrando quanto pagou por a, b ou c) e por aí fora.
Estar bem / ser feliz é mau. É estranho. Por incrível que pareça até para nós próprios. Há quase uma espécie de culpa associada. Não o dizemos abertamente quando passamos por fases verdadeiramente boas. Por pudor pela infelicidade dos outros, pelo "mau olhado", batemos 3 vezes na madeira quando afirmamos algo de muito bom e não queremos que desapareça.

"Como estás?"
"Vou indo"

Há uma tendência, uma amiga minha chamou-lhe e muito bem, portuguesismo, para a desgraça, para a tristeza, para o menosprezo das nossas qualidades.
Não me estou a excluir deste lote. Estou a reflectir sobre mim mesma e as incongruências de tanta coisa do que faço e do que me é dado a ver e pensar sobre.
Porque o que eu sou e como sou afecta-me obviamente a mim, em primeiríssimo lugar. Mas acaba sempre por influenciar os que me rodeiam, os que eu amo e prezo. E isso, consequentemente, reflectir-se-á, de novo, em mim.
Todos temos fases boas, péssimas, assim assim, em que a vida parece que nos passou completamente ao lado, que não quer saber de nós, em que tudo é difícil, que a dor parece infindável, mas que remédio temos nós senão acreditar em dias melhores? E quando as forças (e a mente) o permitirem, lutar por isso?
E chego à conclusão que tudo passa em 1º lugar por não achar a felicidade um corpo estranho. Não o é, não pode ser,... não pode ser.

O colocar-mo-nos no lugar dos outros (que continuo a achar uma da maneiras mais íntegras de se viver e conviver) tem algumas dificuldades.
Perante o desabafo de amigos meus, por estes dias, em que tanta coisa lhes corre mal, há uma sensação enorme de impotência. O que se diz, o que se faz para cuidar, para afagar? Porque quando me sai da boca "dias melhores virão, tens de ter esperança" até a mim a afirmação parece ingénua. Porque quando se abraça apertado, apertado sabe-se que não cura a dor.
Não será a solução acreditar mesmo que a felicidade não é um corpo estranho e impossível e que até nós podemos ter direito a ela?




Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser consequente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!




quarta-feira, 16 de julho de 2014

Conto

Ela já estava habituada, ainda que continuasse a não gostar. Fosse num aniversário, num casamento ou num simples jantar havia sempre alguém que queriam que ela conhecesse porque "tinha a ver com ela" ou porque era "um bom partido" ou "boa pessoa". Espantava-se com a inexactidão das escolhas amigas. Também estava habituada a isso. Ficava com a sensação que as amigas não a conheciam verdadeiramente.
Desculpava-lhes a insistência e não raras vezes sentia-se incomodada por lhes falhar. Não seria aquele. Mais uma vez.
Ele não fugiu à regra. Olhou-o despercebidamente com curiosidade, mas não se sentiu cativada. Não mudou a sua postura em nada, nem mesmo para ela própria cativar. Esqueceu-o durante o jantar.
Foi no bar que ele se aproximou. Os sentidos meios embriagados permitiram o abraço sem autorização. Era um convite à dança a dois. Ela aceitou numa tentativa de relaxar e saborear o momento. Não conseguiu. Enquanto dançava pensava em tudo menos no prazer de estar, de dançar. Não eram aqueles braços que ela queria a envolvê-la. Flashes de outro surgiam enquanto se movia, o pouco prazer que sentia era a imaginar aqueles momentos com outra pessoa. Não era justo. Ele não merecia por muito que não fosse o seu tipo de homem. Não o olhava, seria demasiado íntimo. Assim que teve oportunidade simpaticamente desapegou-se. Ele percebeu e afagou-lhe o cabelo. Ela entristeceu profundamente.
Alguém lhe ofereceu uma bebida, ela aproveitou para repor o sorriso e fazer de conta que estava tudo bem.
Não aguentou muito mais tempo. Pouco depois despedia-se dos amigos alegando cansaço.
Ainda que a noite tivesse sido boa algo podre já a consumia. Confrontava-se mais uma vez consigo, com a teia incapacitante em que se tinha emaranhado e da qual não se conseguia libertar.
A caminho de casa, sozinha, acompanhava-a o volúvel, o engano, o desânimo.
As empatias não se escolhem, os caminhos sim. E desabou.