Começar o ano com despedidas não é o mais agradável, com toda a certeza. A não ser aquelas que avizinham cenários melhores. Mesmo assim há sempre um travo agridoce. Mais acre ou mais doce depende do que se deixa para trás.
A despedida começou a ser desvendada em meados do ano passado, mas lá está, a esperança é a última a morrer...
Hoje em dia nem todos têm a sorte de trabalhar na área em que estudaram, de trabalhar com boas equipas, de gostar do que se faz. Eu tinha as três coisas. Tenho. Continuo na área, nova e boa equipa. Deveria sentir-me satisfeita, não é? Então porque raio sinto que me tiraram algo de que vou ter imensas saudades? Porque efectivamente tiraram-me e nunca nada é linear. A mesma coisa pode ter imensas nuances.
Porque a minha vida mudou sem minha autorização.
Em Dezembro as más notícias já adivinhadas foram dadas e a despedida preparada. E assim o fiz privadamente, com nostalgia, mas serena. E pensa-se que as coisas estão bem sanadas... até que voltas da vida te levam a ir ao local de trabalho uma última vez e vê-lo a ser desmantelado. E não se consegue evitar a comoção e pensar que ali residiu um período bem feliz, que esse estava a ser desmantelado também. Não nos apegamos a cantos, mas à história dos cantos.
Agora..., agora é o que for.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
"Não sei porquê"
A verdade evidente é que é um dia a seguir ao outro.
Não deixa, no entanto, de haver um sentir diferente que o distingue dos demais dias, ainda que parecido com tantos outros anteriores 1 de Janeiro no desejo, na esperança de um ano melhor para mim, para os que me rodeiam e para todos cujas vidas não se cruzam com a minha mas com quem empatizo.
Também se assemelha no esmorecimento que se segue, no comprovar esperado de que as coisas melhoram nas datas que elas bem entendem e não num desejo a 31 de Dezembro a virar para 01 de Janeiro.
E assim se repete, ano após ano, uma esperança única, resiliente que desejamos nunca se desvaneça (para nosso próprio bem), mas fátua.
Tanta esperança em algo melhor no último dia de 2013 e a verdade é que saí desanimada de 2014. Não foi um ano fácil.
Um ano de mudanças. As que não queria concretizaram-se. As que queria não se concretizaram.
Mas um ano de desafios... Quase todos superados.
Um ano em que outros acreditaram em mim e me abriram portas.
Um ano em que aproveitei essas portas abertas para explorar capacidades adormecidas, sonhos antigos, lutando para não me vergar ao receio, à timidez, à vergonha, à minha feroz auto-crítica.
Um ano de amizades reforçadas. Sou tão rica nesse campo...
Um ano em que amigas tão queridas partiram em busca de oportunidades profissionais e ainda que longe estão perto.
Um ano de aprofundamento de outras amizades que estão por perto. Confidências gratas.
Um ano de novos desafios profissionais. O aceitar novos rumos impostos e mais uma vez provar-me que consigo a superação.
Um ano de encerrar do pano de sentimentos para abrir caminho para outros. O que não deixa de provocar alguma nostalgia. Querer acreditar que não foi perda de tempo, que foi um ganhar de algo que ainda não atingi, mas que acabou e ainda bem.
Mais um ano que comprova a minha teoria cada vez mais credível de que há coisas que nunca chegarão a este campo fértil em tanto, mas que não consegue produzir frutos.
Mas depois existem os "não sei porquê"...
Crianças que gostam de mim e não sabem porquê, amigas que vêem coisas e se lembram de mim não sabendo porquê, músicas que me enviam e não sabem bem explicar porquê, empatias que surgem e não sei porquê...
E é com esta certeza que inicio o meu 2015: que para além do óbvio "porque", são também os "não sei porquê" que vamos deixando como rasto noutras pessoas a nossa pegada no mundo e a nossa riqueza intrínseca que tantas vezes desvalorizamos ou não temos noção dela.
Não deixa, no entanto, de haver um sentir diferente que o distingue dos demais dias, ainda que parecido com tantos outros anteriores 1 de Janeiro no desejo, na esperança de um ano melhor para mim, para os que me rodeiam e para todos cujas vidas não se cruzam com a minha mas com quem empatizo.
Também se assemelha no esmorecimento que se segue, no comprovar esperado de que as coisas melhoram nas datas que elas bem entendem e não num desejo a 31 de Dezembro a virar para 01 de Janeiro.
E assim se repete, ano após ano, uma esperança única, resiliente que desejamos nunca se desvaneça (para nosso próprio bem), mas fátua.
Tanta esperança em algo melhor no último dia de 2013 e a verdade é que saí desanimada de 2014. Não foi um ano fácil.
Um ano de mudanças. As que não queria concretizaram-se. As que queria não se concretizaram.
Mas um ano de desafios... Quase todos superados.
Um ano em que outros acreditaram em mim e me abriram portas.
Um ano em que aproveitei essas portas abertas para explorar capacidades adormecidas, sonhos antigos, lutando para não me vergar ao receio, à timidez, à vergonha, à minha feroz auto-crítica.
Um ano de amizades reforçadas. Sou tão rica nesse campo...
Um ano em que amigas tão queridas partiram em busca de oportunidades profissionais e ainda que longe estão perto.
Um ano de aprofundamento de outras amizades que estão por perto. Confidências gratas.
Um ano de novos desafios profissionais. O aceitar novos rumos impostos e mais uma vez provar-me que consigo a superação.
Um ano de encerrar do pano de sentimentos para abrir caminho para outros. O que não deixa de provocar alguma nostalgia. Querer acreditar que não foi perda de tempo, que foi um ganhar de algo que ainda não atingi, mas que acabou e ainda bem.
Mais um ano que comprova a minha teoria cada vez mais credível de que há coisas que nunca chegarão a este campo fértil em tanto, mas que não consegue produzir frutos.
Mas depois existem os "não sei porquê"...
Crianças que gostam de mim e não sabem porquê, amigas que vêem coisas e se lembram de mim não sabendo porquê, músicas que me enviam e não sabem bem explicar porquê, empatias que surgem e não sei porquê...
E é com esta certeza que inicio o meu 2015: que para além do óbvio "porque", são também os "não sei porquê" que vamos deixando como rasto noutras pessoas a nossa pegada no mundo e a nossa riqueza intrínseca que tantas vezes desvalorizamos ou não temos noção dela.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Vivermo-nos
Não era uma senhora simpática.
Sentia-a como uma senhora mal-amada pelos seus, por ela própria, pela vida.
Vizinha dos meus pais, tornou-se minha, e nunca dirigimos mais que um cumprimento de fugida.
Sentia-a como uma senhora infeliz, já não dona dela, que sobrevivia a si mesma. Só.
Comecei a cruzar-me mais com a senhora nos últimos meses e por diversas vezes achei que não me reconhecía. Uma vez foi indelicada comigo, vi-lhe o espanto quando se apercebeu quem eu era, mas voltou ao seu mutismo.
Há três dias atrás pedi-lhe licença para entrar num sítio que iria começar a limpar, olhou de soslaio educado para mim e permitiu-me a entrada. À saída agradeci-lhe. Não me falou.
Há um dia atrás faleceu. E automaticamente lembrei-me daquelas parcas palavras trocadas.
Não sei se por necessidade minha, associei-as quase inconscientemente a uma despedida nossa. E não consegui evitar a comoção. E nestas alturas badala-me sempre aquele tic tac tic tac mórbido da contagem decrescente da vida das pessoas.
A realidade é que cada dia que passa vamos ao encontro da nossa morte. Um dia tic, outro dia tac.
E nestas alturas penso que não se consegue evitar as perguntas:
Damos valor ao que temos? Lutamos pelo que queremos? Desperdiçamos vida? Deixamos legado não material?
Choca-me as pessoas que se vão embora desta vida como se quase não tivessem existido. Como se ninguém lhes sentisse a falta. Que se tornem rapidamente numa lembrança longínqua sem saudade.
Talvez seja importante avaliarmos regularmente o nosso legado de vida para nos sentirmos, para nos vivermos, para não simplesmente sobreviver.
Descanse em paz e ... até sempre.
Sentia-a como uma senhora mal-amada pelos seus, por ela própria, pela vida.
Vizinha dos meus pais, tornou-se minha, e nunca dirigimos mais que um cumprimento de fugida.
Sentia-a como uma senhora infeliz, já não dona dela, que sobrevivia a si mesma. Só.
Comecei a cruzar-me mais com a senhora nos últimos meses e por diversas vezes achei que não me reconhecía. Uma vez foi indelicada comigo, vi-lhe o espanto quando se apercebeu quem eu era, mas voltou ao seu mutismo.
Há três dias atrás pedi-lhe licença para entrar num sítio que iria começar a limpar, olhou de soslaio educado para mim e permitiu-me a entrada. À saída agradeci-lhe. Não me falou.
Há um dia atrás faleceu. E automaticamente lembrei-me daquelas parcas palavras trocadas.
Não sei se por necessidade minha, associei-as quase inconscientemente a uma despedida nossa. E não consegui evitar a comoção. E nestas alturas badala-me sempre aquele tic tac tic tac mórbido da contagem decrescente da vida das pessoas.
A realidade é que cada dia que passa vamos ao encontro da nossa morte. Um dia tic, outro dia tac.
E nestas alturas penso que não se consegue evitar as perguntas:
Damos valor ao que temos? Lutamos pelo que queremos? Desperdiçamos vida? Deixamos legado não material?
Choca-me as pessoas que se vão embora desta vida como se quase não tivessem existido. Como se ninguém lhes sentisse a falta. Que se tornem rapidamente numa lembrança longínqua sem saudade.
Talvez seja importante avaliarmos regularmente o nosso legado de vida para nos sentirmos, para nos vivermos, para não simplesmente sobreviver.
Descanse em paz e ... até sempre.
sábado, 13 de dezembro de 2014
On the road to Christmas
- Mandou-me chamar, Senhor?
- Sim, Clarence. Um homem na terra precisa de nós.
- Esplêndido! Está doente?
- Não. Pior. Está desanimado.
Recordo-me de ver este filme passar na televisão quando era miúda. Da única vez que o vi ficou somente a imagem de um homem completamente perdido no tempo e que ninguém reconhecia que se tenta suicidar numa ponte na época de Natal.
Basta dizer que numa criança isto era inconcebível. No Natal gente infeliz?!?! E a família não o conhecia porquê?! E um filme a preto-e-branco? Que coisa mais triste!
Por causa desta ideia de tristeza profunda que me ficou nunca mais quis ver o filme e nos Natais seguintes evitei-o sempre.
O ano passado decidi reconciliar-me com o filme. Foi mesmo um objectivo de época natalícia.
Não o tinha, procurei-o e encontrei-o. E numa daquelas tardes frias, cinzentas a pedir sofá, manta, chá e biscoitos preparei-me para o ver.
Fui conquistada logo às primeiras falas. Sim, as que destaquei acima.
E ao fim de 2 horas de filme, chorei como em miúda, mas associado vinha uma enorme satisfação por ter feito as pazes com "Wonderful Life".
É um belíssimo Conto de Natal, intemporal na sua sabedoria e mensagem, e que se tornará definitivamente numa das minhas tradições natalícias.Aconselho-vos vivamente.
Por estes dias vou procurar o seu aconchego...
Zangas & Desculpas
Pior que nos zangarmos com os outros, é zangarmo-nos connosco próprios.
É que desculpar (ou não) os outros é um processo mais fácil do que nos perdoarmos (ou não) a nós próprios. Acredito que somos de um modo geral muito mais severos críticos de nós mesmos e não nos perdoamos facilmente. Principalmente quando falhamos na óbvia evidência que insistimos em ornamentar para ficar menos óbvia.
O que fazer quando temos muita dificuldade em nos desculpar?
Não sei, talvez rodearmo-nos de amigos que suportam estoicamente ser chagados vezes sem conta com as nossas dores e que tendo tantas vezes a resposta dura e crua na boca, optam por simplesmente estar porque sabem que da teoria à prática a distância consegue ser enorme.
É que desculpar (ou não) os outros é um processo mais fácil do que nos perdoarmos (ou não) a nós próprios. Acredito que somos de um modo geral muito mais severos críticos de nós mesmos e não nos perdoamos facilmente. Principalmente quando falhamos na óbvia evidência que insistimos em ornamentar para ficar menos óbvia.
O que fazer quando temos muita dificuldade em nos desculpar?
Não sei, talvez rodearmo-nos de amigos que suportam estoicamente ser chagados vezes sem conta com as nossas dores e que tendo tantas vezes a resposta dura e crua na boca, optam por simplesmente estar porque sabem que da teoria à prática a distância consegue ser enorme.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
O que preferia não ter lido
Acontece esbarrar-me em livros que o ímpeto exige a compra imediata.
Nem que seja para dizer que é meu, que fica na estante à minha disposição para quando eu o quiser ler ou simplesmente ver-lhe a capa ou folheá-lo.
Há livros na minha estante que não sei se serão lidos.
Há livros na minha estante que não sei quando serão lidos.
Há livros na minha estante que demoram anos a ser lidos.
Há livros na minha estante que são lidos de imediato.
Há livros que são lidos com anos de atraso.
Mas todos são lidos na hora certa.
Acontece-me encontrar nos livros o que nem sabia que procurava.
Acontece-me encontrar nos livros o que pensava ser problema só meu e ficar aliviada com a desgraça também alheia.
Acontece-me encontrar respostas nos livros.
Acontece-me a coincidência de sentir naquela altura da minha vida o mesmo que os personagens sentem na história de papel.
Acontece-me o prazer de simplesmente ler.
Acontece-me ler o que preferia não ter lido, não porque seja desprovido de beleza ou desinteressante, mas porque pedaços de literatura não nos permitem ficar pelo simples prazer do acto de ler.
Porque ferem. Porque fazem pensar. Porque ferem. Porque nos emocionam quando não queremos. Porque ferem. Porque nos descobrem. Porque nos ferem. Porque não nos deixam mesmo depois de os termos lido há horas.
A primeira diz: “A paixão faz um progresso enorme numa mulher no momento em que ela crê ter agido pouco generosamente, ou ter ferido uma alma nobre”.
E a segunda conclui: “Nunca se deve desconfiar dos maus sentimentos no amor, eles são muito salutares; as mulheres não sucumbem senão ao golpe de uma virtude.”
Gelei. Porque algures em 1830, entre duas taças de café negro, um parisiense-tão-parisiense escrevera o que aconteceu comigo em Maio de 2014 no Alentejo.”
In "O meu amante de domingo", de Alexandra Lucas Coelho
Nunca me arrependerei de ler o que me fere, o que me ensina, o que me emociona, o que me ajuda, o que me provoca, o que me dá prazer, o que me leva a escrever, o que me leva a viver.
Só que...
Nem que seja para dizer que é meu, que fica na estante à minha disposição para quando eu o quiser ler ou simplesmente ver-lhe a capa ou folheá-lo.
Há livros na minha estante que não sei se serão lidos.
Há livros na minha estante que não sei quando serão lidos.
Há livros na minha estante que demoram anos a ser lidos.
Há livros na minha estante que são lidos de imediato.
Há livros que são lidos com anos de atraso.
Mas todos são lidos na hora certa.
Acontece-me encontrar nos livros o que nem sabia que procurava.
Acontece-me encontrar nos livros o que pensava ser problema só meu e ficar aliviada com a desgraça também alheia.
Acontece-me encontrar respostas nos livros.
Acontece-me a coincidência de sentir naquela altura da minha vida o mesmo que os personagens sentem na história de papel.
Acontece-me o prazer de simplesmente ler.
Acontece-me ler o que preferia não ter lido, não porque seja desprovido de beleza ou desinteressante, mas porque pedaços de literatura não nos permitem ficar pelo simples prazer do acto de ler.
Porque ferem. Porque fazem pensar. Porque ferem. Porque nos emocionam quando não queremos. Porque ferem. Porque nos descobrem. Porque nos ferem. Porque não nos deixam mesmo depois de os termos lido há horas.
***
“As mulheres interessam-se mais por
quem estão apaixonadas, e apaixonam-se mais por quem se interessam…
Isto para chegar a duas frases d’A Mulher de Trinta Anos que foram uma
revelação, quando as li.A primeira diz: “A paixão faz um progresso enorme numa mulher no momento em que ela crê ter agido pouco generosamente, ou ter ferido uma alma nobre”.
E a segunda conclui: “Nunca se deve desconfiar dos maus sentimentos no amor, eles são muito salutares; as mulheres não sucumbem senão ao golpe de uma virtude.”
Gelei. Porque algures em 1830, entre duas taças de café negro, um parisiense-tão-parisiense escrevera o que aconteceu comigo em Maio de 2014 no Alentejo.”
In "O meu amante de domingo", de Alexandra Lucas Coelho
***
Afinal minto (a mim própria).Nunca me arrependerei de ler o que me fere, o que me ensina, o que me emociona, o que me ajuda, o que me provoca, o que me dá prazer, o que me leva a escrever, o que me leva a viver.
Só que...
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Rotinas que nos guiam
Há rotinas que criamos e que depois
nos guiam já sem pensarmos.
Quando damos conta já as fizemos, como
se tivesse havido um lapso de tempo em que fomos teletransportados.
Assim é quando na minha hora de almoço
me encontro na livraria do sítio.
Só preciso de ficar ali, a olhar os
livros que vi ontem e anteontem e antes disso.
E quando volto ao trabalho… regresso
calma.
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